CRÍTICA CINECLUBEIESB: TEMPORADAS 2011/02 E 2012/01

É com grande prazer que trazemos à tona (fora o atraso!) mais uma rodada de críticas feitas pelos alunos/críticos que frequentam o nosso Cineclube. E é com grande prazer que noticiamos o visível amadurecimento dos mesmos, seja na forma com que problematizam história/estética/análise dos filmes, seja na capacidade de observarem e apontarem problemas novos em relação ao cinema em geral, que é a tarefa principal da crítica, afinal de contas. Em primeiro lugar, um belo ensaio de Cássio de Oliveira a respeito da Nas paredes da pedra encantada, documentário livre sobre o Paêbirú de Lula Côrtes e Zé Ramalho, que exibimos em primeira mãe, e sessão especialíssima, com presença do diretor Cristiano Bastos, no fim de 2011. Cássio alinha o filme a certas tendências contemporâneas do atual cinema brasileiro e depois parte para uma renovação na argumentação sobre a política da imagem. Depois, nosso pequeno prodígio Gustavo Dourado faz exaustiva revisão dos mitos e tecnologias em Guerra nas estrelas, problematizando modelos contemporâneos do business do cinema, assim como re-valorando este inesqucível blockbuster em vários aspectos. Por fimNelson Ricardo, habitué do Cineclube e aluno do Jornalismo, debuta na crítica e aborda o tema da morbidez em Cría Cuervos, já pela temporada 2012/01. Enfim, ótima leitura e comentários são sempre bem-vindos. Os autores agradecem feedbacks.

Nas paredes da pedra encantada: A política da imagem
Por Cássio Fernandes de Oliveira

Não se trata aqui de exaltar o “precário”, precariedade essa no sentido técnico- som, montagem, fotografia -, ou como também no sentido logístico; nem muito menos fazer acreditar que há na construção de tais imagens uma sedutora espontaneidade intuitiva ou que elas se originam de uma criação fortuita. O que está em jogo aqui, portanto, são certos procedimentos de linguagem que o filme irá levar a cabo a partir daqueles pressupostos. A tradição histórica do que foi o nosso maior emancipador projeto cinematográfico, o cinema novo, já trazia o frescor da questão (Uma câmera na mão e uma idéia na cabeça, Glauber), a de que a falta de recursos reverteria a tal precariedade em procedimento estético; criar, pois, linguagem a partir do que se dispõe (uma política-estética). Não foi assim somente no cinema novo, mas também em vários outros momentos-movimentos do cinema moderno brasileiro (cinema marginal; boca do lixo), como também, se ampliarmos o alcance, nunca deixou de ser uma pauta na tradição do cinema moderno mundial.

A retomada do cinema brasileiro nos anos 1990 trazia consigo um “contrato de termo de responsabilidade”, que ao inverso, pretendia se nivelar ao o selo de qualidade de Hollywood, copiando seu modelo técnico, instaurando aí um paradigma que, a priori, garantiria a especialização de boa qualidade nos filmes desse período (questão que voltarei depois) e traria, desse modo, a “credibilidade” junto ao público. Essa pauta moderna, contudo, retornaria novamente no núcleo de um debate quando surge no cinema brasileiro uma nova geração de cineastas-críticos, por assim dizer, que repõe, novamente e não sem problemas, o discurso do precário como disparo para uma “nova” política na criação cinematográfica.  Grosso modo, esse período ou geração foi (está sendo) denominado de novíssimo cinema brasileiro. Não quero com isso pretender formatar as especificidades desse rótulo, tampouco dizer que Nas paredes da pedra encantada, ou seus diretores, Cristiano Bastos e Leonardo Bomfim, estão preocupados em filiar-se a um modelo estético desse “novo cinema” (até porque é bem complicado falar de conjunto numa cena tão plural). Pretendo somente  – e não através de um discurso mitificador a favor do mal-acabado – pontuar algumas questões que esse filme oferece na utilização dessa prerrogativa. O elogio primeiro que faço a ele é, sobretudo, à maneira como não se pretende um filme que arrenda o precário como uma estética cristalizada. Não se apropria dele para uma estilização, mas que tem nele um estilo imanente em que a realidade das condições de produção é determinante na construção da sua forma. O que interessa, no entanto, não é o fetiche por essa política do escasso, mas sim o procedimento fílmico gerado nessa relação.  É curioso como causa; como relação de poder, ou como inversão das relações de poder. Outro paradigma (Filipe Furtado, Filme Cultura, 63, 2011).

Ainda sobre essa política (a do precário) é necessário traçar algumas considerações que ajudam a esclarecer os vários discursos que nascem, em vários filmes, dentro desse contexto da retomada, sobretudo no jovem cinema brasileiro ressacado de um projeto fundamentado tanto na obsessão pela técnica quanto pela dependência do edital como único espaço possível da realização cinematográfica. Fábio Andrade, na sua crítica ao filme de Felipe Bragança, A Fuga da mulher Gorila (revista cinética, 2009), levanta algumas questões que merecem uma reflexão: Se como evidencia o crítico, o cineasta Domingos de Oliveira, no seu Manifesto do B.O.A.A, esclarece logo nos créditos iniciais do longa Carreiras a adesão a essa política do baixo orçamento, não é por outra coisa se não como justificativa prévia para um licenciamento que legitime, através de uma autoconsciência, qualquer imperfeição; já em A fuga da mulher Gorila, pode-se dizer, há uma mudança estrutural nesse ato que, partindo de uma mesma lógica, não o torna oposto,  mas que entrega, contudo, outro sentido: Bragança coloca nos créditos finais (e não nos iniciais, como Domingos) o quanto custou o seu filme e a quantidade de pessoas para realizá-lo. Andrade vê aí não uma justificativa para qualquer falha que seja, mas um discurso ideológico baseado numa entrega absoluta. O fazer cinema como um ato de afeto (assunto que merece uma reflexão e que pretendo abordar em um texto futuro). O elogio do crítico é, então, a uma política de realização fundada na entrega e no prazer. Em Nas paredes da pedra encantada o caso é ainda outro caso (que não é nem o de justificar o filme nem de fundar uma política de realização).  Não há sequer créditos no filme; sua montagem é errática; não há conceito na luz nem tão pouco um som cautelosamente sincronizado ou controlado. Tudo falta ou excede. Não existe, no entanto, qualquer discurso, seja por uma justificativa (Carreiras) ou por uma vaidade (A fuga da mulher Gorila) que o filme venha defender, que não esteja na própria política da imagem. Não há nada, e nem por quê, que sirva para evidenciar o processo. Tudo está na tela. Os diretores entendem que não é preciso apoiar seu filme em discursos, nem para explicá-lo e nem para ostentá-lo, porque se há uma política, qualquer que venha ser, ela está explicitada na imagem.

O cinema sempre contará o que os movimentos e os tempos da imagem os fazem contar (Deleuze). Nas paredes da Pedra encantada acaba seguindo à risca esse radical, essa política do movimento e da duração, excluindo a imagem-motora em favor do movimento, e dos acontecimentos contínuos do mundo em detrimento de uma rigorosa síntese de encenação. E isso não se dá sem a força e independência do personagem de Lula Côrtes, pois o filme, antes de tudo, é sobre o disco produzido por ele e por Zé Ramalho, o lendário Paêbiú, na metade dos anos 1970 e, por conseguinte, sobre a cena musical e cultural da época na região de Recife à Paraíba.   Lula, como também todos os outros personagens desse universo-filme, como se nota no decorrer dos acontecimentos, ocupam não só um lugar no espaço cênico como personagens, mas são, sobretudo, agentes provocadores da inversão de relações entre o que olha e o que é olhado. Entre o filme e o mundo.  A problemática das relações de poder entre diretor (aparato) e personagem, neste filme, implica numa inversão de formatação interessante; numa troca de forças sobre a condução das imagens, a partir não mais de uma hierarquia de encenação que vai da direção (diretor) para os dirigidos (ator, personagem). Quem define a decupagem, pois, não é mais, não totalmente, a autoridade de quem seleciona (diretor). A sequência final do filme (um longo plano-sequência) bem evidencia isso quando notamos que a câmera precisa, para que possa existir uma cena, se sujeitar à  presença física do personagem (não há tempo para ilustrar sobre o que ele fala, a única possibilidade da câmera e segui-lo), e aí o mundo se decupa na tela; no transcorrer mesmo da caminhada. Há nessa atitude uma urgência, um devir, convertida em linguagem, mesmo soando irregular e excessivo, e isso já é muito para evidenciar a potência de um filme como esse: uma forma para o mundo e não um mundo para uma forma. É esse o ato de quem olha; de quem inscreve um olhar. O de um autor.

Nas paredes da pedra encantada é um documentário e o seu dispositivo é uma viagem-retorno a um espaço original que o diretor pretende investigar. Seu desejo é o de reatualizar uma história, portanto. Mas o curioso, contudo, são os rumos que suas imagens tomam com relação a isso: porque não há uma só imagem de arquivo, tampouco uma organização didática da ordem dos acontecimentos. Tudo se dá no encontro e tudo se bifurca a partir daí, para ser um filme não só sobre um disco raro, mas sobre todo um contexto que transcende a banalidade do tema, tornando-se, não um filme que relembra, mas um filme que olha direto no presente. Trata-se de um filme em tudo desobediente, e aí é sintomática a desestabilização das relações de poder, em que os personagens (Côrtes, sobretudo por ser a espinha dorsal que leva a todos os outros) desobedecem ao rigor da forma para eles mesmos depositarem nela uma contingência que revela mais do que qualquer síntese. E se eles (ou o mundo) chafurdam a ordem, o filme também desobedecerá qualquer regularidade à qual o espectador está acostumado no seu modo de construir um pensamento sobre aquilo que olha (Tanto a cena do Travelling 360°, quanto o já citado plano-sequência final podem ser tomadas de exemplo). Aqui as imagens são de rebeldia. Eis, de fato, sua palavra de ordem.

Sobre isso ainda se pode incluir outros muitos filmes do jovem cinema brasileiro contemporâneo que ajudam a delinear esse novo paradigma da representação. Isso, claro, com toda pluralidade e bifurcações que esses filmes possam apresentar – e com todos os seus problemas e problematizações, igualmente.  Para outra hora.

Star Wars: taoísmo de uma fantasia folclórica
por Gustavo Dourado

Todos sabem que Star Wars é um filme muito popular, sempre visto por uma legião de fãs incondicionais e também por admiradores do cinema, seja como arte e/ou entretenimento. Ambas visões que são encaradas como coisas intrinsecamente unidas, e também como separadas. Todavia, não é um filme que é revisto com um debruçamento distinto, e assim é interessante encará-lo com distanciamento. Mas não é propriamente essa palavra para se empregar, pois refletir o filme sem um sentimento é uma tarefa complicada. O mérito de Star Wars é a transmissão da emoção por ideias simples em sua filosofia, até em certos momentos uma digestão fácil do Zen, Taoísmo e lendas ocidentais da cultura tradicional. Influências unidas com um complexo uso de todos os recursos de comunicação que o cinema disponibiliza em várias subdivisões, como a edição, o som, a música, o desenho de produção entre outros. Mas até qual ponto o canal de comunicação cinematográfica permite transmitir uma complexidade filosófica de um jeito específico? Talvez, se o Zen mastigado fosse mais complexo, a bilheteria e o sucesso lendário do filme não teria existido. O apelo sentimental por uma filosofia demasiadamente simples que pode se fazer profunda só aparentemente facilitou uma conexão emotiva e empática com a audiência. E por essa “magia” imersiva de outro mundo, o filme apresenta o mérito do acreditável, da esperança. Algo que os EUA daquele momento precisavam devido ao grande número de personagens cínicos dos filmes da década de 70 e a guerra do Vietnã perdida, criando um clima pessimista na sociedade americana.

Tudo isto sintetizado em um dos filmes mais difíceis de se executar na história. A produção foi tão desgastante e complexa que criaram três divisões de direção para filmar o filme a tempo no final das captações. Além das condições adversas da locação no norte da África com temperaturas altíssimas e do convívio estressante com alguns membros da equipe. Ou por simplesmente a maioria das pessoas não levarem a sério o universo em desenvolvimento imaginado por George Lucas. Todos pensavam que o produto seria um fracasso de bilheteria e de crítica, e nos estúdios passava-se a impressão de um filme B, uma produção secundária de ficção-científica com baixos valores de produção. Esse estranhamento é justificável devido aos cenários, figurinos e efeitos serem muito diferentes do visto até aquela época. Era até difícil para os atores, principalmente os mais jovens, terem uma postura séria no set. O filme é um exemplo de produção que deveria ser estudada a fundo por estudantes de cinema para perceberem a complexidade de diversas questões envolvidas. George Lucas chegou ao medo de um infarto por causa de tanta tensão no “projeto de sua vida”.

Apesar dos poucos investimentos, a obra nos ensina como um idealista em um projeto precisa confiar em sua perspectiva para que o projeto não afunde, ou que abra mão de suas convicções únicas para criar uma obra medíocre. Star Wars modificou o modo de fazer filmes, confirmando que a história de Lucas não tem apenas o mérito de revolucionar os efeitos especiais ou sonoros. O filme é visto com uma perspectiva reducionista em alguns momentos por críticos que preferem um cinema dito autoral com legitimidade de vanguarda. No entanto, ao analisar com mais cuidado todo o processo envolvido nas múltiplas resoluções, assim como na mudança de papéis que um cineasta independente no início de sua carreira proporcionou à indústria cultural por completo (com uma visão ousada na execução, mas num filme simples em conteúdo), os méritos de Star Wars se tornam mais evidentes. Há inclusive muitos filmes que “mastigam” filosofias complexas. Então será que trata-se de simplicidade e transparência em prol do conteudo ou meramente um reaproveitamento, pela cultura pop, do erudito? Com Star Wars há até uma procura dos valores arquetípicos apenas pela cultura pop. Assim, muitas pessoas esquecem do erudito, da origem de certos mitos ou a perspectiva em comparar as várias fontes e ter uma visão ampla.

Pode-se dizer que Star Wars é um dos mitos de nossa época, considerando que os mitos se transformam com o tempo e assumem outras formas, mas permanecem profundos  o atingem intensamente suas culturas. Não é à toa que é o segundo filme com a maior bilheteria da história do cinema, atrás apenas de …E o vento levou. Algo interessante a se notar é que, em épocas de crise mundial, guerras ou recessões econômicas, o cinema com um filme em especial prende o imaginário das plateias. Chaplin na primeira guerra, …E o vento levou e O mágico de Oz na segunda guerra, Star Wars na crise dos anos 70, e Avatar com a atual crise econômica do final dos anos 2000 e anos 2010.

É difícil encarar George Lucas atualmente como um diretor independente com experimentações estéticas, mas nos primeiros anos de sua carreira ele tinha uma visão personalizável diferente do padrão da indústria, e inclusive encontram-se resquícios na sua atitude ao fazer Star Wars. Preocupações como não deixar os produtores modificarem o filme ou fazer um final diferente eram temas principais. Lucas tinha dificuldade em conseguir patrocínio e reconhecimento por causa de suas convicções estéticas, até que fundou sua própria empresa e parou de assumir a posição de vaguardista que defendera em THX 1138.  Então, Star Wars foi uma grande reviravolta na sua carreira, aposentando-o como um diretor bem instruído, o que resultou no longo intervalo na direção até o primeiro filme da nova trilogia, A ameaça fantasma, ser considerado mal executado, constatando a perda  da prática e do talento que Lucas apresentava em filmes como THX 1138 e American Graffiti. Após Uma Nova Esperança (título posterior de Star Wars), Lucas focou na produção e na administração da empresa. Star Wars gerou uma longa indústria de histórias alternativas aos filmes: brinquedos, artigos de colecionadores… Foi um filme que consagrou os ramos expandidos. Um filme não acaba mais na sala de cinema como um produto físico.  Desde então, há várias mídias que acabam criando uma espécie de mitologia industrializada, para aproveitar o máximo de lucro das marcas registradas e aproveitar a popularidade universal dos filmes. Lucas é uma espécie de nerd dos anos 70 que se tornou um CEO, mas no campo do Cinema. Veio com ideias independentes das grandes empresas e criou um produto que absorveu o mundo exponencialmente.

O curioso é que, desde a gênese do roteiro, Star Wars já apresentava a tendência de várias alternativas da história. Nomes, aspectos, estrutura da narrativa, personalidade das personagens foram concebidas de várias maneiras até se chegar ao roteiro final. Então se pergunta, será que o Star Wars que conhecemos hoje como filme finalizado era a melhor das maneiras a ser concebida? Ou será que havia uma melhor? No entanto, percebe-se que o filme teve que se adaptar para não ficar muito excêntrico em ambientação e para que pudesse ser apresentado como projeto e ganhar investimento. A única coisa fixa que Lucas declarou era o envolvimento do pai (Darth Vader) com os dois gêmeos (Luke e Leia). As opções eram tantas, que Darth Vader já foi pensado como um herói em vez de vilão arquetípico. Mas não é totalmente culpa de Lucas e sua empresa por Star Wars ter tantos universos alternativos e expandidos. Na época de lançamento, as pessoas queriam se sentir conectadas ao filme, usando camisetas e acessórios, mas não havia tantos artigos para se vender. Eles nem foram concebidos como o são atualmente. Só foram feitos antes do lançamento do filme alguns produtos para promover a divulgação e imersão no universo para atrair público. Mas nada que chamasse a atenção. Muito material do filme e sobre ele era mantido às obscuras devido à crença no fracasso da obra.

Outro questionamento interessante: os fãs de Star Wars são mais apaixonados que outros tipos de fãs? Será que um fã de Darth Vader é mais empático por seu personagem com toda a mania de colecionador e devoção que um fã de Corisco, de Deus e o Diabo na Terra Do sol? Ou há toda uma representação política e econômica da cultura de consumo para legitimar mais paixão por uma cultura que pelo menos é mais difundida para a massa que outras. Apesar de que a massa não é alheia a bons julgamentos. Exemplos é a difusão de grandes pintores como Van Gogh e Picasso na conversa do povo. E até qual ponto um nerd é um iniciado em uma cultura significativamente? Assim como muitas outras coisas, a cultura nerd em muitos campos se torna mero produto comercial com marketing forçado e banalização do conteúdo.

Outro mérito do filme é uma conexão com o orgânico. Apesar da tecnologia, algumas coisas lembram o artesanal. Isso é o oposto dos efeitos digitais atuais, com filmes bastante artificiais sem ter um realismo em significado. O universo de Star Wars é gasto, muitos lugares são sujos, velhos. Não é como a “limpeza digital” de muitos filmes com complexidade de efeitos. Além de o roteiro aproveitar, como sincretismo, vários arquétipos de várias referências, nota-se que o diretor foi aluno do erudito Joseph Campbell em mitologia. O filme apresenta vários recursos plurais, houve uma boa base de pesquisa, vários meios cinematográficos de expressão e uma influência vasta de filmes de matinê e fantasias com aventuras. Ele deve ser analisado de forma plural e contextualizada com vários conhecimentos para evitar os reducionismos. Uma interpretação política são os comandantes do império terem sotaques russos. Será que isso se remeteu ao imaginário coletivo americano de que a URSS era o inimigo supremo e isso tornou o império legítimo em fascismo e ditadura? Mas não se pode reduzir o filme apenas às interpretações fechadas umas das outras. Ele apresenta toda uma conexão que precisa ser apreciada. A história também tem um ar nostálgico, como se os grandes contos dos grandes heróis clássicos estivesse no entardecer, como algo do passado remoto. E isso pode ser expresso em uma matéria de jornal da época quando Star Wars foi lançado: “Star Wars: eu acredito, eu acredito.” Como se os grandes heróis retornassem de uma grande recessão e as histórias otimistas e divertidas fortalecidas novamente no imaginário coletivo. Muitos o reduzem por ser um blockbuster e ter uma imensa legião de fãs, esquecendo-se da importância do filme devido a particularidades de juízos de valor, como acontecem com várias obras na obscuridade em países menos conhecidos. A obra é lembrada até hoje no imaginário e provavelmente continuará como vários mitos que inspiraram a obra.

O filme, por mais que tenha um aproveitamento gigantesco de referências, (Kurosawa é uma delas com Fortaleza escondida), goza de originalidade em várias cenas como a do “binary sunset”, com Luke Skywalker observando o anoitecer do planeta com o crepúsculo de duas estrelas. Associada com a música sinfônica de John Williams, a beleza das imagens invade o campo da nostalgia. No entanto, essa nostalgia não é apenas negativa. Graças a essa síntese entre a genialidade de Williams e a produção plural do filme, criou-se literalmente uma espécie de ópera contemporânea com locações que remetem ao gigantesco, ao infinito, ao passado distante, a outro mundo. E, justamente por isso, Binary Sunset é uma das cenas mais marcantes já feitas. E o filme sem a música fica anêmico, como uma ópera sem bons cantores. Muitos comentam a voz de Darth Vader feita por James Earl Jones, mas a voz de Alec Guiness como Obi-Wan Kenobi é eletrizante ao evocar a Força espiritualmente para Luke Skywalker, que pode ser uma espécie de alter-ego de George Lucas: o jovem sonhador em busca da independência, mas ainda com medo de seguir a jornada completa. O mito de fantasia e ciência é um aprendizado para se pensar que o cinema é a união de vários canais de linguagem e aplicação. Star Wars sem os efeitos sonoros ficaria menos convincente. Assim como qualquer parte desse filme que fosse retirada, perder-se-ia o equilíbrio e a organicidade desta fantasia folclórica.

Cría cuervos: aceitação da crueldade infantil
Por Nelson Ricardo

Dirigido por Carlos Saura, Cria Cuervos tem várias interpretações e leituras. A mais evidente é como drama familiar. Drama forte. A visão da morte, nesta obra, sempre é vista como solução. Solução para lembranças que já se foram. Solução contra pessoas que detestamos. Mesmo em brincadeiras infantis ela é vista como finalidade. O que mais choca não é o tema de visão mórbida da morte. A pessoa de onde vem estes pensamentos é quem incomoda. Uma criança. Jovem, tendo relação bastante próxima com a morte. Íntima o suficiente para perguntar a um certo personagem se ela não quer morrer. Dizer que tinha meios para ajudá-la a causar a própria morte.

O aspecto narrativo é onírico. Vários problemas são mostrados em tempos narrativos diferentes. Uma cena pode pular para outra de forma bastante discreta e abrupta. Torna-se, no início, um pouco difícil de compreender a linha do tempo. A intenção neste filme, porém, é deixar os acontecimentos razoavelmente claros. Do meio do filme para o resto não tive problemas em acompanhar a linha narrativa; apesar dos constantes pulos de espaço e tempo. Entre esses momentos, sempre parecem predominar problemas familiares. A não-aceitação da tia, que assumiu a guarda da garota protagonista (Ana Torrent). As constantes lembranças da mãe morta, que vez e outra se misturam no tempo retratado. A visão negativa dos personagens masculinos (todos militares), etc. Percebe-se, em uma hora, que a história é narrada pela protagonista já adulta. Diz ela não possuir lembranças felizes na infância. Nota-se certa paranoia e melancolia no rosto. Fica a dúvida do quanto sua visão do “eu adulto” influenciou na narrativa do “eu infantil”. Os personagens são quase todos agressivos (tirando a mãe). Retratados de forma grosseira, muitas vezes egocêntrica. Nas próprias tomadas de cena é possível perceber a influencia da visão interna da protagonista. Muitas vezes a câmera assume o papel em primeira pessoa. As cenas de real aflição sempre são retratadas ou na garota, ou na mãe (em exceção da cena da personagem que queria que a matassem).

A repetição de cenas também está muito presente. Isso intensifica o aspecto paranoico da história. Se não é a repetição, é com um sinônimo, fazendo referencia a certa “cena x” que parece marcar a personagem. Às vezes elas possuem um significado diferente da inicial. Muitas vezes torna-se difícil distinguir sonho do real. Às vezes o suficiente para ficar preso em um loop eterno entre um e outro. A narrativa da memória é a predominante no filme. Influencia muito no conteúdo final da obra.

Apesar de tantos negativos da vida; de sempre ter como foco os problemas na história; existe uma cena que se destaca por ser um dos raros momentos “felizes” no roteiro. A cena em que Ana e suas irmãs dançam, em que toca a música “porque te vas”. Música que, ironicamente, trata de temas como saudade e abandono. Sentimentos que a protagonista enfrenta. Mas com um ritmo dançante e (de certo modo) animado. Destaca-se a simplicidade na ideia da cena. Não influencia em nada, diretamente, o roteiro. O momento está lá somente para mostrar que houve bons momentos. Áparte do plot, em geral; ou, no caso, dos problemas.

O close nos pés de galinha é uma imagem recorrente. Ana olha com repulsa quando a vê em algumas horas. Em outras, ignora-a completamente. O pé de galinha é também referente á obsessão da morte. A parte mais evidente de um ser que já morreu. Outras comidas possuem formas mais abstratas. Não se percebe com evidencia o cadáver do animal morto. Com o pé de galinha, por outro lado, percebe-se claramente que houve de fato uma galinha. Que ela foi morta, e seus pés foram arrancados. É uma das cenas que mais se repetem.

Cría Curvos é um filme pesado, por acumular tantos temas negativos. A crueldade infantil também está bastante presente. Ana (em sua faceta adulta) afirma, em uma hora no filme, não acreditar na inocência das crianças. Essa visão sombria de personagens infantis, tornando-os tão (ou mais) complexos que os adultos, é a coisa que mais chama a atenção. Neste sentido, nada é mais apropriado que o título escolhido para o filme. “Cria cuervos” vem de um ditado popular espanhol: “crie corvos e eles arrancarão seus olhos”. Uma criança, com tendências que variam entre suicida e homicida, foi o maior triunfo que o filme conseguiu conquistar. Vale também dizer que a atuação das crianças aqui é excelente. Dirigir crianças e fazê-las atuarem tão bem quanto outros atores com anos de carreira é uma tarefa difícil. Especialmente quando em um drama. Felizmente, Carlos Saura teve bom sucesso no trabalho. Destaco a Ana Torrent, mas as suas duas irmãs também tiveram boa performance. Recomendo o filme especialmente para aqueles que se interessam por personagens infantis consideravelmente mais complexos que os presentes na maioria dos filmes.

Para ler TODAS as críticas do Cineclubeiesb, clique AQUI.

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