Pacote de críticas! Temporada 2011/01

Chegamos ao fim de mais uma temporada do nosso CINECLUBEIESB. É uma pena, mas tenha a certeza de que voltaremos para temporada 2011/02. No final de tudo, é importante fazer uma balanço a partir dos debates intensos sobre virtualidade, cinema moderno brasileiro, cultura africana, faroestes, obras-primas e cinema de Kung Fu que se instauraram em nossa arena de filmes!

É por isso também que vamos apresentar mais textos dos nossos alunos, cada vez mais aguçados na perspectiva analítica, incorporando conceitos e procedimentos que trabalhos em sala e no cineclube. O principal ponto de debate foi a primeira de todas as sessões, com a revisão do Tron original, que acabou sustentando longo debate sobre os limites da virtualidade. Mateus de Medeiros estreia em nossas linhas com texto levemente sarcástico e de visão cética (mas como questionar?) sobre os limites entre arte e indústria deste filme. Já nosso tradicional crítico Lucas Simões procura ver o filme mais do ponto de vista de seu herói, pensando na jornada tradicional dos filmes de Hollywood. O filme Tïlai, do cineasta de Burkina Faso Idrissa Quedraogo, complexo e intrigante que seja, também recebeu cuidadosa leitura de Mateus, que o usou para pensar fronteiras éticas e antropológicas na arte do cinema. Boa leitura e até o semestre que vem! 🙂

Tron – Vintage Eletrônico

por Mateus de Medeiros, 3º semestre

Tron – Uma Odisséia Eletrônica é um filme de 1982, escrito e dirigido por Steven Lisberger, que conta a história de Kevin Flynn (Jeff Bridges), um programador de jogos que teve seus projetos roubados e lançados comercialmente por Ed Dillinger (David Warner), e desde então tenta invadir os sistemas da companhia de software em que trabalhavam, a ENCOM, para provar que Flynn que era o verdadeiro desenvolvedor dos games de sucesso. Mesmo com todo esse conflito de interesses entre Flynn e Dillinger, o verdadeiro vilão da história é o Master Computer Program (MCP, Programa Mestre de Controle) que foi criado por Ed para controlar os sistemas da ENCOM, mas começou a suprimir e absorver vários programas para se fortalecer, desenvolvendo uma inteligência muito superior à de quando foi criado e passando a ter como objetivo alvos maiores que os programas da ENCOM, visando até mesmo os controles do Pentágono. No auge do desespero para impedir Flynn de hackear a ENCOM, o MCP digitaliza o programador e o lança junto dos programas rebeldes em um jogo que muito se assemelha às batalhas entre gladiadores, mas com uma roupagem muito mais tecnológica, onde os programas disputam até serem destruídos.

A premissa acima talvez dê a ideia de que para Tron ter se tornado um clássico, o mesmo deve ser um filme extremamente inteligente, com um roteiro bastante coeso e original e diálogos marcantes e bem escritos e que se aprofunda sociologicamente nas questões de relação de poder. Não. O filme não tem como primeira intenção levantar uma discussão sobre o caminho em que a tecnologia está levando a humanidade e como as criaturas eletrônicas podem um dia superar os criadores humanos e há (poucos, mas não raros) momentos em que os diálogos e as interpretações coadjuvantes podem levar o espectador a uma pequena indignação com o status do filme. A Disney lançou Uma Odisseia Eletrônica com almejos não tão ambiciosos dramaticamente, e sim mais um filme para família com os aspectos que todo blockbuster de verão gosta de apresentar.

O segredo do filme reside no pioneirismo e na ousadia. Os efeitos visuais de Tron, mesmo que obviamente ultrapassados e talvez datados, ainda apresentam o grande charme da narrativa e se encaixam no filme tão bem que até hoje podem ser apreciados; a animação e os efeitos digitais do filme abriram portas para longas como Toy Story, conforme afirmado pelo diretor da animação, John Lasseter. A odisséia eletrônica cresceu na forma do blockbuster como um marco inspirador – ou apenas nostálgico – da infância de muitos da década de oitenta e mesmo podendo cair no esquecimento das gerações futuras, o filme entrou para história pela sua contribuição e isso não lhe será tirado. O legado do filme transpassa o cinema: Tron é para jogadores de videogames, sobre jogadores de videogames. Os efeitos visuais não só fascinaram por dar o ritmo do filme, mas por remeter a uma linguagem que a juventude da época estava bastante acostumada. A obra é como o PacMan (Come-Come): mesmo com jogos muito mais inteligentes e complexos e gráficos super-realistas, é uma diversão que sempre será resgatada em algum momento ou outro. Toda geração vai conhecer PacMan. Não necessariamente o terá como jogo preferido, mas saberá aproveitar o que ele proporciona.

Tron não deixa de apresentar questões que podem chegar a ser interessantes quando discutidas, mesmo não usando o material que dispunha para fazer um enredo mais coeso e profundo ou mesmo lançando as dúvidas de maneira mais charmosa e eficaz para o espectador. O filme e sua estrela principal talvez até se esforcem para dar um ar mais sério e elegante para um enredo que não quer muito mais do que sucesso comercial, mas não chega a ser suficiente. Jeff Bridges praticamente carrega sozinho o dinamismo forçado da história. Sua atuação contrasta no meio do clichê de voz e feição de vilão e do casal apaixonado em olhares perdidos e sem nenhuma profundidade de relacionamento mostrada à audiência. Os personagens do filme em si são todos bidimensionais; estereótipos inseridos na narrativa sem uma preocupação de contar uma história, e sim de mostrar aspectos visuais técnicos.

Esta obra de Lisberger talvez seja então um dos melhores exemplos para se considerar o limiar de até onde a estética é um acessório à história e quando a história se torna um coadjuvante para o visual. Seja como marco dos efeitos visuais no cinema ou apenas como um filme de verão de 1982, Tron ainda é um filme que deve ser assistido e comentado, prestes a fazer seus trinta anos, a obra envelhece como um exemplo de onde tentar inovar e aonde tentar não errar.

Tron – Um herói feito de bytes

por Lucas Simões, 6º semestre

O conflito homem-máquina (ou homem-tecnologia) sempre foi um conceitonarrativamente rico e amplamente explorado em vários filmes. Com o surgimento do videogame e outros avanços tecnológicos que melhoraram a qualidade de vida da população é possível ver a tecnologia como algo benéfico, mas ainda paira algum medo a respeito. E foi o videogame Pong que inspirou a obra exibida na última quarta-feira: Tron (1982).

O filme conta a história de Kevin Flynn (Jeff Bridges), um gênio da computação que trabalha na ENCOM, e lá desenvolve vários jogos de computador, mas é traído por um companheiro de trabalho, Ed Dillinger (David Warner), que rouba seus jogos e diz que ele, e não Flynn, os desenvolvera, recebendo todo o crédito e sendo promovido em seu lugar. A partir daí Flynn começa a tentar invadir o sistema central da ENCOM controlado pelo Programa de Controle Mestre (PCM, tendo sua voz emprestada de David Warner) e provar a autoria de seu trabalho. No entanto, o programa que Flynn desenvolve para invadir o sistema, Clu (que possui a mesma aparência de seu ‘usuário’, no caso, Flynn) é capturado e destruído. Flynn tem um amigo, Alan (Bruce Boxleitner), que também trabalha na ENCOM e tenta ajudá-lo a atingir seu objetivo, mas seu programa, Tron (nome derivado de eletronic), também é capturado. Eles possuem mais dois amigos na empresa, a Dr. Lora (Cindy Morgan) e o Dr. Walter (Barnard Hughes). Embora Lora, Alan e Flynn sejam bons amigos, tanto Flynn quanto Alan gostam de Lora, o que gera um conflito entre os dois. Flynn é um protagonista clássico: infantil, extrovertido e carismático, que precisa assumir as responsabilidades que lhe são impostas e se tornar um homem. Alan é um homem, porém, um pouco sério e careta, e falta-lhe a ousadia e charme de Flynn. Lora então fica indecisa entre os dois. Os três decidem juntos invadir o PCM, resgatarem Tron e com sua ajuda atingirem seus objetivos. Depois de entrarem, Flynn começa a invadir o sistema, mas é interceptado por PCM, que o captura e o aprisiona no mundo virtual.

No mundo virtual (feito em maior parte por computação gráfica) Flynn percebe a clara inversão em relação ao mundo real, onde ao invés de homens idolatrarem máquinas, eram as máquinas, programas, que idolatravam os homens, usuários. PCM, que no mundo real era apenas um computador, no mundo virtual era o governante absoluto e maligno. Porém, Flynn descobre que por ser um usuário ele tinha um poder praticamente divino no mundo virtual. Para impedir o sucesso do grupo PCM, conta com seus lacaios digitais e com Sark, o programa de Dilinger, que funciona como um programa de autoridade, como um ditador fanático sob o comando de um deus louco. Sark aprisiona todos os programas sem utilidade ou que o desobedeça e os coloca em uma arena para lutarem até a morte, e Flynn fora jogado lá e forçado a lutar. Na cela de Flynn estão Tron (que Flynn reconhece imediatamente por ser idêntico a Alan) e Ram (Dan Shor), sendo Tron o melhor guerreiro entre eles. Juntos, eles decidem fugir e ir destruir PCM.

Flynn tem dificuldades em aceitar seu destino (ou seu chamado à aventura) pelo fato de estar levando aquilo tudo como um jogo, como um mero apertar de botões, dada sua condição de puer aeternus. Uma das coisas que impulsionam Flynn para seu destino é a morte de Ram, que deixa claro para ele que aquilo não é um jogo. Tron, que funciona como o mentor de Flynn, é esse herói, mas precisa de ajuda por não ser páreo para PCM, e tanto Alan quanto Flynn o ajudam a derrotá-lo. Em seu amparo estão também Yori e Dumont, os respectivos programas de Lora e Walter, e Yori também funciona, assim como Lora, para gerar conflito entre Flynn e Tron. Depois de derrotarem PCM, Flynn consegue a prova da autoria de sua criação e sai vitorioso.

O visual do filme tanto dentro quanto fora do mundo virtual é bastante moderno e tecnológico, com muitas luzes, letreiros em neon, e a parte das motos lembra os rastros de luz em fotografias de carros. Tudo que é aprendido por um programa/usuário no mundo virtual é armazenado no seu disco, mesmo disco utilizado em batalhas. Osfigurinos do mundo virtual são roupas coladas por onde correm linhas de neon, como se eles fossem seres feitos basicamente de luz, e é azul para os bonzinhos e vermelho para os vilões, outro clássico.

Sucesso que virou franquia, gerando outro filme contando a continuação da história, Tron: Legacy, Tron é apenas mais um dos vários filmes de ficção científica que ilustra que um pouco de imaginação e ousadia podem criar excelentes histórias.

Tilaï, a lei – (Des)Construção

por Mateus de Medeiros, 3º semestre

Tilaï (A Lei) é um filme de 1990, dirigido por Idrissa Ouedraogo – natural de Burkina Faso – e sua história se passa ao redor de uma família que se abala com a volta do primogênito para a aldeia. Contudo, mais que um filme sobre uma situação ou uma jornada do herói típica, A Lei é um filme sobre costumes, sobre uma sociedade patriarca, honrosa. A imagem que se constrói na cabeça do novo espectador é exatamente a de desconstrução.

O trabalho da arte e do diretor no filme reforça a ideia de regionalismo e fatalismo que a história pede, remetendo a um ambiente pouco realista para o olhar ocidental, mas tão verdadeiro para quem está na tela, que, pelos minutos do filme, dá para entender o irmão que matou o outro ou por que deixou de matar, e porque isso lhe consome por dentro.

As locações africanas contrastam a areia límpida e clara com o verde vivo das árvores e os tons amarelados por toda a extensão geográfica. O espectador é levado a presenciar o filme, sentir sua história, e não há espaço aqui para buscar entender as habitações, querer levar uma visão política ou filantrópica para o filme africano. Tilaï é um relato poético e importante de uma história, um filme ‘arte’ interessante e bonito, sem uma veia ativista. Vários planos abertos também reforçam essa ideia: a história se passa ali na frente, sem closes excessivos, sem movimentos de câmera exageradamente coreografados – como têm-se visto a torto e a direito nas salas de cinema nos fins de semana. Pelo contrário, câmera fixa, com poucas correções, movimentos suaves.

A Lei não se prende em tempo e diálogos desnecessários. Os personagens são diretos, o silêncio, por várias vezes, carrega a narrativa. Não bastassem os nomes complicados e o dialeto totalmente estranho, a história não é exatamente fácil de acompanhar ou aceitar inquestionavelmente, mas o filme não se prende a explicar para o olhar externo o motivo dos personagens se comportarem da maneira que se comportam, e funciona.

Não há jornada do herói, não há redenção para Saga, ou para Kougri, o costume é o costume, a lei é a lei, não adianta esperar que o protagonista se dê bem no final, pois seu meio é bastante claro quanto os comportamentos. Não vão ser recursos cinematográficos que irão mudar isso, e talvez seja esse o maior baque do primeiro olhar. ‘Ué, acabou?’

O trabalho complicado de transformar diálogos e produção relativamente simples em uma obra respeitável prova que Ouedraogo é um ótimo cineasta. Africano ou não. Para quem for se aventurar no cinema africano esperando ver miséria, doença e sofrimento, arquitramas basicamente cronometradas e o sentimento bom de terminar o filme com tudo resolvido e com o bem vencendo, é melhor reconsiderar. Tilaï está aí para mostrar que nem tudo é maniqueísmo, nem tudo é óbvio, nem tudo é só entretenimento.

Outras críticas dos alunos no CINECLUBEIESB:

Nós que nos amávamos tanto, Ettore Scola, por Marconi Araujo

Mal dos trópicos, Weeresethekul Apichatong, por Cássio de Oliveira

Deserto Vermelho, Michelangelo Antonioni, por Lucas Simões

Deserto Vermelho, Michelangelo Antonioni, por Gustavo Dourado

Fellini 8 e 1/2, Federico Fellini, por Lucas Simões

Desejo e Obsessão, Claire Denis, por Paulo Lannes

A Noite dos Mortos-Vivos, George Romero, por Lucas Simões

O Enigma de Kaspar Hauser, Werner Herzog, por Cristina Dorneles

A Professora de Piano, Michael Haneke, por Cássio Oliveira

A Professora de Piano, Michael Haneke, por Marconi Araújo

Anti-herói Americano, de Shari Springer Berman e Robert Pulcini, por Lucas Simões

Anti-herói Americano, de Shari Springer Berman e Robert Pulcini, por Adriano

Sinédoque Nova York, Charlie Kaufman, por Lucas Simões

O Cozinheiro, O Ladrão, sua Mulher e sua Amante, Peter Greenaway, por Lucas Simões

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