CRÍTICAS #CINECLUBEIESB: Tetsuo the Iron Man; A Festa da Menina Morta; Mother

Repassando nossa variada temporada passado, trazemos enfim à tona três textos produzidos por nossos talentosos e antenados alunos a respeito de alguns dos filmes mais instigantes exibidos. Como aperitivo para o que está por vir nesta temporada 2011/01, podemos entender que nossa produção prima não apenas pelo conhecimento dos contextos que norteiam especificamente estes filmes, mas também por entendê-los fora da época em que se originaram esses discursos. Assim, Gustavo Dourado revive Buñuel e faz emergir a trilha sonora e o material em 16mm do trash de Tetsuo para entender o caos cyberpunk deste filme. Já Cássio de Oliveira faz imersão profunda no conteudo mítico e simbólico, por meio da idolatria e da fé, que está no impactante Festa da Menina Morta. Por fim, Diego Bezerra nos traz enxuta, mas precisa visão da plurivocalidade de gêneros que está presente no coreano Mother. Boa leitura! 🙂

Pontos de mutação surrealistas – Tetsuo, the iron man

A primeira parte da trilogia cyberpunk de Shinya Tsukamoto, Tetsuo – The Iron Man, trouxe a notoriedade internacional para este diretor japonês considerado maldito. Tal epíteto faz jus aos temas fetichistas explorados nos filmes de forma pertubadora e com conotações brutais, formando uma coleção de obras atípicas e fetiches tecnológicos apreciados com originalidade pelo autor underground do final dos anos 80. O exotismo presente na realização de Tetsuo se dá devido ao retrato de um mundo técnico com uma visão artesanal de recursos pouco especializados. Sendo assim, a obra transmite uma visão caótica com a união de campos tão opostos através da elaboração de uma montagem dinâmica que ressalta ainda mais esse tom de “combate violento” de personagens imersas na transmutação do orgânico para o mecânico.

Esse ponto de mutação provém de um acontecimento gratuito e simples que causa reviradas surrealistas, entre lutas de robôs e carnificinas, pervertidas por erotismo extenuado. Um exemplo é o órgão genital masculino como furadeira assassina: traços metafóricos para driblar a censura japonesa em relação à sexualidade e funcionando como protesto à disciplina rígida da sociedade do país do sol nascente. O espectador sente-se bastante incomodado ao assistir Tetsuo pelas agressões chocantes, algo que Buñuel pretendia trazer nos seus filmes também surrealistas, e pela visão bizarra do futuro robotizado como um germe que nasceu sem os seres humanos terem entendido sua origem. Esta confusão em relação à origem do problema é exemplificada na perda da identidade natural do corpo e da alma do personagem vivido pelo próprio Tsukamoto. O momento desta perda do Metal Fetishist é a transmissão de vários tempos entre o ente os aspectos mental dele e da mulher mecânica, colocando uma das bases do surrealismo: os sonhos sem identificação de seus princípios.

O negativo de 16mm, quase esquecido atualmente, aplicado na construção das imagens do filme, traz a ele uma despadronização fotográfica que coloca uma época de difícil identificação na ficção. O pesadelo não é situado no final dos anos 80, mas em um período alternativo, como um universo paralelo com tecnologias mais rebuscadas e de emaranhamento de cabos e fios. A música é contemporânea por excelência e honra a visão do autor por combinar o ritmo sonoro à montagem sem criar um suporte de apoio forçado entre ambos. São elementos técnicos que enriqueceram a obra de Shinya e a tornam um trash extremamente cultuado e que desafia as convenções estéticas como beleza e apreciação – atividades, nesse caso, modificadas e reiventadas ao assisti-lo. O filme acaba agregando mérito por desafiar o cinéfilo a expandir as fronteiras culturais do seu próprio entendimento sobre a perfeição artística.

Gustavo Dourado – 2º semestre

O discurso da performance na dialética da dor – A Fetsa da Menina Morta

É muito forte, neste filme, a influência que o diretor estreante Matheus Nachtergaele traz do pernambucano Cláudio Assis, cineasta com o qual trabalhou em filmes como Amarelo manga e Baixio das bestas, ambos roteirizado por Hilton Lacerda, roteirista colaborador e criador do universo dramático (e prosaico) deste A festa da menina morta. Assim, pontuando essa notável influência com sua trajetória de ator, é possível chegar a uma equação estética certeira, em um resultado que privilegia uma visão naturalista do homem com atuações altamente performáticas.

A trama se passa numa comunidade ribeirinha localizada no interior do Amazonas, em que a população local cultiva um mito cuja fundação é baseada na morte de uma menina. Diz a lenda que os trapos de sua roupa foi encontrado por Santinho (interpretado magistralmente por Daniel de Oliveira)  na boca de um cachorro, e, a partir desse fato, dito milagroso e místico, ele é alçado a líder religioso do local, sendo o responsável por dar voz às revelações da tal menina e trazer cura, em nome dela, para os devotos.

A performance barroca é notadamente o carro-chefe do filme. A narrativa, quase sem trama, aceita, apenas, o corpo do ator e só por aí é que ela transborda. A câmera só permite a histeria; o grito e o tapa.  O próprio filme parece funcionar somente enquanto os atores, nos seus esforços corporais, puderem render. Mas nisso há poucas oscilações, pois atores como Daniel de Oliveira, Juliano Cazarré e, principalmente, os recrutados locais se perdem, visceralmente, em seus papéis.

Nisso o cineasta acertou porque soube traduzir a trama diretamente nos gestos, e se o seu desejo é falar de um Brasil profundo, amalgamado e sincrético, tratando a religião como elemento alienante ou como um mecanismo de controle social, ele só o poderia através do transe e esse se revela, só, no corpo. Somente por intermédio dele é que a transcendência pode se manifestar. Assim, os corpos estão delegados ao serviço do mito que os fundamentam no processo coletivo, e se a ação epilética surge no gesto extravagante do corpo é porque esse é o dilema do espírito.

Apesar de o diretor criar signos recorrentes, reiterando, sempre, o seu discurso mais caro através dos animais mortos ou em eminência de morte (as vísceras do jacaré, a galinha sendo degolada, o porco agonizando), são em duas grandes cenas que a síntese se dá. Quando Tadeu, o irmão da tal menina morta do título interpretado por Juliano Cazarré e peça chave no ritual religioso, chega para Santinho, diante do seu trono, e diz que não mais participará da festa santa, Santinho reage histérico e vocifera o sentido: “Obrigação lá tem escolha!”. Eis aí o filme, em que o luxo da opção é bloqueado. O cético, na tentativa de fugir do ambiente, é comido por ele e, aqui, não se pode questionar o que está sedimentado.

Quando, na cena seguinte, o porco que grita agonizante afoga-se e, finalmente, se conforma com o destino que foi lhe dado, que é o sacrifício de morrer e de ser comida, vislumbra-se o significado. De nada adianta se debater porque aqui a revolta não significa nada. Tudo termina na conformação. Desse modo, Santinho, o sacerdote real (andrógino, oscilante, ambíguo e duplo) é quem melhor revela a agonia. Obrigado a sustentar o mito em si mesmo e a acreditar veementemente no personagem que escolheu para si, torna-se, no discurso, a peça central de ligação. Ele é o próprio sistema metafísico, religioso, social e econômico no qual todos giram em torno, e que submete a si mesmo e aos outros ao peso da aceitação, alienando-se e alienando-os.

Na outra cena resumo, Santinho, já no fim da película e no momento final da festa religiosa, como que para evidenciar um (pós) discurso que justifique a tese, discorre sobre a revelação da menina (a própria do filme), em que a dor é a palavra. Todos devem aceitá-la. Tudo é sacrificado na dor, e a vida, para manter a ordem, só é possível nessa aceitação.

Dessa forma a aposta de Pascal é, por assim dizer, o cálculo que melhor justifica a ação dos homens neste ambiente em que não custa nada acreditar, pois mesmo que não haja milagre nem revelação seria melhor apostar que há, assim não existe absolutamente nada para se perder. Porque o que se perde, no fim das contas, é a escolha e, como já dito, não há escolha quando se nasce sob o julgo da obrigação. Com essa polpa temática naturalista é que Nachtergaele escolhe se enveredar no caminho da direção, e o filme, apesar de vazar vez ou outra alguma irregularidade, ou melhor, alguma redundância, prova que está no caminho certo e que, diferentemente de Assis, no seu tratamento cínico com os personagens, exibe senso de observação e respeito para com os seus.

Cássio F de Oliveira –  4° semestre

Pequena análise de um filme potente – Mother, em Busca da Vida

Mother não se trata de um filme de gênero, mas de um filme de gêneros. Do evidente drama passado pela protagonista ao tentar livrar da prisão seu filho inocente, ao filme de detetive onde a mãe toma a investigação para si, passando pelo humor peculiar do comportamento daquele garoto, o filme passeia por diferentes instâncias de cinema . O diretor Bong Joon-ho mescla todos esses elementos de forma muito inteligente, sem complicar a narrativa e também sem subestimar o espectador. Se enxergássemos o filme apenas como um excelente e bem engendrado thriller estaríamos já diante de uma grande obra. Doses homeopáticas de sugestões sobre como o fatídico crime teria realmente ocorrido, personagens e objetos-chave criam uma tensão que conduz com precisão a narrativa do filme, nos prendendo até a resolução final. Porém cabe ao ato de observar a maneira como o martírio da mãe, durante a tentativa de resolução do crime, influi numa torrente de sentimentos que deturpa valores e expõe uma personalidade bem mais complexa do que uma primeira caracterização sugeriria (a não ser sutilmente no genial plano que abre o filme), é onde se encontra o primor de Mother. Estes dois aspectos tornam-se intrínsecos, revelando um filme uno e consistente.

Diego Bezerra – 2º semestre

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