#Crítica: Onde estamos errando?

O que ficou claro no debate ontem e ao longo do festival, e agora é quase como o elefante na sala pros alunos de cinema que não estão exatamente satisfeitos com seus resultados, ou aqueles que até estão mas querem realmente se deleitar na linguagem e deslizar pela altura e pelo comprimento dela sem cair na banalidade (habilidade essa chamada de estilo, e não lembro de quem é essa frase) e assim criar obras de real valor: precisamos voltar pro básico. Como já conversei com muitos colegas, acredito precisamos voltar à alfabetização de audiovisual, por mais que não tenhamos ido muito longe disso.

O que aqueles quatro realizadores, extremamente abertos e simpáticos ao público de aprendizes que compareceu, nos disseram é que pra chegar ao Festival (considere a instância “Festival”, nenhum em específico) eles passaram por uma educação e vivência de experimentar de tudo. Da narcótica videoarte ao comercial, caminhando principalmente pelas produções simples, mas com diálogos interessantíssimos e uma montagem bem justa e digna. Essa simplicidade da produção dá ao cineasta a liberdade de fazer a decupagem adequada, por mais trabalhosa que seja. Também dá a liberdade de executar um roteiro refinado, se for o caso, e concentrar-se na atuação. O que me preocupa é que não é dessa forma que fazemos.

Na saída, em off, rendi o Iberê e o Santiago com essa questão – como procedemos? somos turmas de superproduções logo em seus primeiros filmes, já filmamos em locações impensáveis mas ainda não sabemos fazer roteiro; gastamos uma energia imensa em filmes que acabam não retornando metade do que prometiam, porque só sabemos um mínimo do que realmente faz um filme bom. Sequer de cinematografia, que é um grande enfoque do currículo, tem um refinamento teórico ou prático. O que vejo nas produções é um set repleto de refletores, deixando o quadro com um aspecto que nem é natural nem é uma proposta estética nova, o que na verdade parece refletir uma falta de proposta, ou uma proposta desafinada com a execução, por falta de conhecimento. Sim, falta do “comofas?” é normal pra amador, dali se evolui. O veneno é não ter alguma dimensão da nossa ignorância em relação à linguagem que nos promomos a usar.

O Santiago confessou que já esteve nesse esquema, começando fez filme até com helicóptero, só que sem roteiro interessante (tanto é que nem foi o que ele levou pra nos mostrar do início da carreira dele). O que ele mostrou foi o divertido Nada Consta, que talvez nem todo mundo viu ainda:

Logo o Iberê acrescentou que o ponto é fugir desse imenso gasto de tempo e trabalho com produção: determinar alguns pontos fixos, como por exemplo ter o filme com apenas uma ou duas locações, que foi o caso do Suicídio Cidadão, seu primeiro curta-metragem em 16mm. A partir daí, a atenção do diretor se volta toda pros cuidados da estética e do cênico.

Queria que começássemos a praticar mais e produzir menos. Devemos viver de desafios, e nosso desafio agora é saber do que estamos falando quando dizemos que somos do cinema. Não, não somos ainda, e temos que conquistar isso voltando pros roteiros de produções simples, porém coesos. O desafio criativo e intelectual é o que tem que nos nortear, não o desafio de TER que vencer um pitching e querer enfiar um filme de R$2.500 num orçamento de R$1.500 e no final das contas perder todo o esforço porque teve que limpar inúmeros planos que estavam planejados porque não deram certo, e o filme ficar muito aquém do investimento recebido. Entendam: nosso problema não é de sermos preguiçosos, pelo contrário, é de nos matarmos porque somos gananciosos sem a menor estratégia e conhecimento para tal. Proponho que botemos em prática, independentemente do IESB, outros formatos (inclusive fora das narrativas clássicas) e outras técnicas, usando como guia um estudo teórico que também seja independente do que recebemos na faculdade, uma vez que ele muitas vezes deixa a desejar. É assim que se aprende a construir obras numa linguagem.

E então, viajei quanto? O que vocês, resistentes que aguentaram até o fim do post, acham?

Tudo que eu quis dizer, mas talvez não tenha feito direito escrevendo tanto,  pode ser trocado pelo trailer do curta-metragem SIMON, de um diretor gringo chamado Dave Christenson, que é um roteiro simples de toque cômico/melancólico. São duas locações, sendo elas uma escola e um cômodo de um apartamento, poucos atores e alguns figurantes. O plano de iluminação usado foi em grande parte composto pelas luzes já existentes, salvo alguns retoques em poucas cenas. Enfim, chega de trololó, vejamos se agora a gente se entende:
http://player.vimeo.com/video/984606

SIMON from Dave Christenson on Vimeo.

 

Por @PirigueteCult
Aluna do 4º semestre de Cinema e Mídias Digitais
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Comments
4 Responses to “#Crítica: Onde estamos errando?”
  1. José de Campos Nascentes Junior says:

    É isso ai Periguete. Concordo contigo quase que 100%. Só não concordo 100% pq “toda unamidade é burra”. kkk Brincadeirinha. Mas desde o primeiro semestre, eu venho “lutando” no intuito de uma “nova” visão acadêmica. Desde o início, me perguntava como é que faremos filmes, se não sabemos resolver cenas? Planos? Atuações? E roteiros? Realmente… Temos muitos filmes obesos, com cara se saudáveis. Mas no fundo, estão com as artérias tão entupidas de “gorduras” que nem o Dr. Hollywood seria capaz de resolver. (desculpa o trocadilho) O que isso gera? Infarto prematuro! Filmes que não passam da adolescência. O processo como está hoje, é como se fosse uma “droga competitiva” que, pra vencermos, temos que comer mais cachorros quentes que o competidor voraz ao lado. E no fundo, o que mais precisamos nesse momento é a singeleza e o prazer da simplicidade verdadeira. Aquela verdade que só nós somos capazes de proferir, justamente pelas nossas singularidades e bagagens únicas de vida. Não costumo destruir “coisas” pra construir outras. A vanguarda nunca acabará com o Clássico e vice-versa. Acho que tem espaço pra todos os gêneros e experimentos. Também sei que a faculdade não vai nos ensinar tudo aquilo que precisamos para sermos “profissionais”, ou “amadores” (essas fronteiras estão caindo) bem sucedidos no “mercado”. Mas acredito piamente, que é na faculdade, o lugar ideal para sairmos mais apaixonados pela arte do que nunca. E o que tenho visto é um “simulacro” de um mundo “real” que passa longe da verdade competitiva que nos fazem crer. Pessoas com medo de um “mercado”, que está de braços abertos para o singelo, o poético e o verdadeiro. Com suas auto estimas cada vez mais baixas por conta de um “mito da maldade” que impera no mundo cinematográfico, que está engatinhando de tão novo que é. No debate de ontem, o que mais me agradou, foi perceber que são pessoas como a gente. Sem porcelanas. Ainda com seus sonhos, medos e frustrações. Que apesar de tudo, continuam amando o fazer filmes como se estivessem começando agora. Outro detalhe importante é o poder argumentativo que todos possuem. Elemento fundamental na arte do “contar histórias”. Torço pra que tenhamos estradas diversificadas, para que possamos voltar a ver o cinema/arte/filme, como um processo de enriquecimento de alma/gen. E que seja um processo que valha a pena tanto para nós quanto para os espectadores ávidos por cultura, entretenimento e arte. (essas fronteiras estão caindo) Serão passos leves, dolorosos e prazerosos, pois é assim caminha a humanidade…

  2. Bruna Martins says:

    Apoiadíssimo!!! É isso mesmo que está faltando: prática. A ousadia de experimentar. Vejo todo mundo com pressa, com a cabeça presa querendo fazer superprodução, se fechando no passo-a-passo, na vontade louca de ganhar um ‘pitching’ da vida…é o que eu vejo pelo menos. Se quisermos aprender, vamos aprender na raça, exatamente como vc disse: INDEPENDENTEMENTE do IESB. APRENDER! O processo de aprendizagem leva tempo, é necessário tesão, dedicação e que se aprenda com os erros! As pessoas estão morrendo de medo de errar!

    Façam. Façam. Só isso! Experimentem! É assim que a gente aprende.

  3. José de Campos says:

    É isso ai Periguete. Concordo contigo quase que 100%. Só não concordo 100% pq “toda unamidade é burra”. kkk Brincadeirinha. Mas desde o primeiro semestre, eu venho “lutando” no intuito de uma “nova” visão acadêmica. Desde o início, me perguntava como é que faremos filmes, se não sabemos resolver cenas? Planos? Atuações? E roteiros? Realmente… Temos muitos filmes obesos, com cara se saudáveis. Mas no fundo, estão com as artérias tão entupidas de “gorduras” que nem o Dr. Hollywood seria capaz de resolver. (desculpa o trocadilho)
    O que isso gera? Infarto prematuro! Filmes que não passam da adolescência. O processo como está hoje, é como se fosse uma “droga competitiva” que, pra vencermos, temos que comer mais cachorros quentes que o competidor voraz aolado. E no fundo, o que mais precisamos nesse momento é a singeleza e o prazer
    da simplicidade verdadeira. Aquela verdade que só nós somos capazes de proferir, justamente pelas nossas singularidades e bagagens únicas de vida. Não costumo destruir “coisas” pra construir outras. A vanguarda nunca acabará com o Clássico e vice-versa. Acho que tem espaço pra todos os gêneros e experimentos. Também sei que a faculdade não vai nos ensinar tudo aquilo que precisamos para sermos “profissionais”, ou “amadores” (essas fronteiras estão caindo) bem sucedidos no “mercado”. Mas acredito piamente, que é na faculdade, o lugar ideal para sairmos mais apaixonados pela arte do que nunca. E o que
    tenho visto é um “simulacro” de um mundo “real” que passa longe da verdade competitiva que nos fazem crer. Pessoas com medo de um “mercado”, que está de braços abertos para o singelo, o poético e o verdadeiro. Com suas auto estimas cada vez mais baixas por conta de um “mito da maldade” que impera no mundo cinematográfico, que está engatinhando de tão novo que é. No debate de ontem, o que mais me agradou, foi perceber que são pessoas como a gente. Sem porcelanas. Ainda com seus sonhos, medos e frustrações. Que apesar de tudo, continuam amando o fazer filmes como se estivessem começando agora. Outro detalhe importante é o poder argumentativo que todos possuem. Elemento fundamental na arte do “contar histórias”. Torço pra que tenhamos estradas diversificadas, para que possamos voltar a ver o cinema/arte/filme, como um processo de enriquecimento de alma/gen. E que seja um processo que valha a
    pena tanto para nós quanto para os espectadores ávidos por cultura, entretenimento e arte. (essas fronteiras estão caindo) Serão passos leves, dolorosos e prazerosos, pois é assim caminha a humanidade…

  4. Amelia Kuono says:

    Concordo que devemos começar de baixo. E também sugiro um reforço na formalidade e organização nos trabalhos. Esse trabalho de cobertura do IESB, por exemplo, é uma iniciativa muito interessante, mas também está rendendo alguns textos confusos e até mal escritos. Acho que para fazer cobertura de eventos também precisamos começar a conhecer alguns fundamentos do jornalismo (que, querendo ou não, são necessários) e também de coerência e coesão na linguagem.

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