#Crítica – Mostra Competitiva de Curta-metragens 35mm 28/11

Amor?, De João Jardim, RJ.

Se o filme da noite anterior, o céu sobre os ombros, buscou nas personagens reais, interpretados pelos próprios, a sua forma, o diretor João Jardim também o fez, mas sob outro extremo. Em amor? Os depoimentos de personagens reais são interpretados por atores – e atores de peso do cenário nacional, Colocando em prática (aqui vale a comparação) o exercício genial que Eduardo Coutinho havia problematizado no seu filme “jogo de cena”.

O filme é baseado em depoimentos de casos reais cujo tema é a violência contra as mulheres e dentro dessa relação o diretor propõe a discurssão de suas causas e motivações mais intrínsecas. Qual é a fronteira entre amor e agressão? Onde termina um e começa outro? Obsessão, poder, dominação e amor. Sem maniqueísmos nem esquemas gerais, o filme se propõe a ir fundo nestas questões, trabalhando medidas e dando voz a homens e mulheres; agredidos e agressores e assim poder problematizar o tema, sem, no entanto, nunca resolvê-lo nem encerra-lo por completo.

O longa tranformou-se em ficção porque o realizador teve a necessidade de usar atores para garantir o anonimato das pessoas verídicas, cujos depoimentos foram colhidos a partir de uma longa pesquisa. Daí o motivo de o elenco surgir como a grande força. Os atores abrem mão dos maneirismos e improvisam o texto a partir de suas interpretações dos casos reais. O filme é dividido em depoimentos e pelo nome dos locutores. As entrevistas feita de maneira clássica pretendem forjar ali um caráter documental, fazendo questão de manter o realismo e se esforçando para passar a credibilidade frente ao público. É, também, inevitável não pensar nas semelhanças de escrita com o filme de estréia do diretor, o famigerado “Janela da alma”, em que as passagens de depoimentos são amortecidas por imagens poéticas. O efeito dessas imagens, aqui, é de amenização e de familiaridade para que o espectador possa se sentir mais perto do debate e se reconhecer ali, esclarece o diretor João Jardim.

Há, no entanto, quem visse na idéia um prolongamento e nesse prolongamento um esgotamento. A sensação de que o cineasta espreme demais o seu tema é algo comum a um filme como esse, mas longe de se projetar como uma tese, teledramatúrgica, sociológica fácil, o filme quer ser um espaço para as milhares de vozes tratarem, antes de tudo, de suas experiências individuais e assim fazer perceber que essa fronteira é demasiadamente tênue. Como pode o amor conviver com a violência? E até que ponto um vaza no outro? É amor? Palmas e prêmios!

Por Cássio F Oliveira

A mula teimosa e o controle remoto Hélio Villela Nunes ficção, cor, 35 mm, 15min, SP, 2010

Um curta paulista sobre a amizade entre um menino do campo e outro da cidade inaugurou a penúltima noite da competição oficial e levou o espectador ao êxtase. O filme passeia entre a diversão e a delicadeza ao mostrar a formação da amizade entre dois garotos numa aventura silenciosa. Sem diálogos, o filme trabalha as vivências e o olhar da infância sobre as diferenças e o valor da amizade. Ótima fotografia e um som apuradíssimo. Garantido.

Por Cássio F Oliveira

Singelo exercício cinematográfico que valoriza a pantomima em detrimento do verbo, o curta ‘A Mula Teimosa e o Controle Remoto’ é eloqüente em sua proposta de representar imagética e poeticamente o encontro de dois universos: o moderno e o tradicional. As diferenças tecnológicas e o choque cultural se apresentam como o mote para o curta, cuja narrativa se revela econômica, sutil, com boa química entre os atores mirins. Ao dispensar diálogos e se concentrar em gags visuais, de inspiração chapliniana, a narrativa acaba por atribuir ao som uma função dramática, a saber, a de definir o gênero do filme, no caso, um inusitado faroeste. Assim, numa simbólica evocação de um duelo, enquanto o forasteiro infantil manipula com destreza, contra o garoto nativo, um aeromodelo, este se defende utilizando os recursos da fauna local como armas naturais.

A fotografia busca ressaltar os tons terrosos, anis e verdes daquele universo rural, como fica patente no início do filme e, principalmente, na pitoresca viagem de trator dos protagonistas. Aliás, fauna, flora e maquinário, ao longo do filme, se conjugam na conformação de um universo lúdico e fantástico, que traduzem exatamente o olhar cheio de espanto de uma criança, filtro pelo qual se dá o estranhamento, para o telespectador, de coisas tão familiares, motivo, enfim, de nosso encantamento. Coisa de cinema.

Por Marconi Araújo

Café aurora, Pablo Polo ficção, cor, 35 mm, 19min, PE, 2010

O segundo curta metragem da noite veio de Pernambuco, Estado já tradicional nas cotas de premiação do festival. Café Aurora trouxe sutileza ao trabalhar o universo específico de personagens que percebem o mundo através de sensações e cujas palavras são dispensáveis. O filme é uma ode ao detalhe, afirma o diretor do curto Pablo Pólo. O roteiro simples, uma artista plástica cega que se apaixona por um barista, trabalha sofisticadamente a relação entre duas pessoas a partir de uma conexão estabelecida nos atos sutis. Em um mundo rápido e impessoal a delicadeza dos sentidos ainda é uma opção enriquecedora de contato com o mundo. Um filme sensorial em que sentir é mais importante que compreender.

Por Cássio F Oliveira
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