#crítica: Mostra Digital e 35mm, sexta (26) e sábado (27)

“O eixo” (2010) – Ricardo Movits

O cineasta e poeta Ricardo Movits cria uma reflexão sobre o tempo em seu filme-poema “O eixo”, livre adaptação do também poema de Amneres “As Retas do Eixo Rodoviário”, onde uma mulher resgata suas memórias de infância enquanto passeia pelo Eixão de Brasília. Ela navega portanto no eixo linear do tempo, e caminha pela cidade cartão-postal como mulher e menina, anonimamente e silenciosamente. Seu monólogo interior solitário é acompanhado por uma trilha sonora não-diegética que complementa a voz over.

O diretor opta pela câmera parada, como se buscasse os versos ou as estrofes em imagens. Possui uma direção de arte com uma paleta nos tons dos próprios prédios e árvores, na talvez tentativa de mesclar as personagens com a paisagem como se tudo estivesse dentro da memória, associado de forma igual. A música suspende a narrativa em um estado de sonho, devaneio, pela ausência de ruídos para dar uma noção de realidade, coesão entre som e imagem. O filme no entanto parece um pouco tímido justamente por não tentar explorar melhor todos esses aspectos, por não tentar ousar mais nos movimentos de câmera, na música, na arte, na atuação, enfim, no próprio conceito, já que fora desenvolvido a partir de um poema. Um potencial inexplorado.

Por Lucas Simões
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 6º semestre

“Traz outro amigo também” (2010) – Frederico Cabral

O porto-alegrense Frederico Cabral nos traz essa linda história que começa no mundo comum dos homens e entra no mundo mais especial de todos, o das crianças. O protagonista é um detetive que recebe um caso impossível e, ao mesmo tempo, irrecusável, e decide aceitar. Sua missão é encontrar o amigo imaginário desaparecido de seu cliente, quando ele não acredita que isso exista, e sua jornada passa a ser então a jornada de acreditar. O filme é repleto de ótimos momentos e situações, onde a comédia toda é observar um adulto tentando ser criança e tentando ver amigos imaginários que ‘não estão lá’.

O diferencial deste filme tecnicamente é o uso de computação gráfica que transfere de vez a narrativa para o lado fantástico da imaginação das crianças, quebrando a dura e chata realidade dos adultos. Uma ótima atuação dos personagens mirins, bem como dos menos mirins, todos conseguindo nos convencer aos poucos que aqueles amigos imaginários realmente estão ali, naquele espaço vazio. Narrativa de detetive com o clássico over complementando a fala do protagonista e nos ajudando a compreender melhor sua personalidade.

Um dos melhores filmes desse festival. Imperdível!

Por Lucas Simões
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 6º semestre

 

“Desbravadores de caminho – uma curta história do povoado de São Jorge” (2010) – Betânia Victor e Zepedro

O curta cria, através de depoimentos, entrevistas clássicas, os talking heads, a história do garimpo de cristais em São Jorge. Não há imagens de arquivo ou fotografias antigas como suporte, há apenas o depoimento daqueles ex-garimpeiros, que contam suas histórias e situações. Contam como cada um deles conseguiu sobreviver após o garimpo se tornar uma atividade extinta naquela região por conta do desmatamento.

O documentário acaba se focando um pouco demais naqueles personagens e se esquece um pouco de outro personagem bastante importante, a própria cidade. Muito do tema se enfraquece pelo fato de não se explorar a cidade, seus arredores, os lugares onde era feito o garimpo, como era feito o garimpo. Discutiu-se seus impactos na natureza, porém de uma forma bem breve. Não me parece que quer contar uma história, e sim estimular o turismo no local.

Por Lucas Simões
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 6º semestre

 

“Tudo aquilo que quis ver com seus olhos” (2010) – Leonardo Villas Braga

A partir de um poema do administrador do teatro do Gama, Chico Baru, o filme reflete um pouco sobre seu criador, sobre seu trabalho e sobre as mulheres que compartilharam com ele aquele palco, as mulheres que amou. Com uma linguagem simples e direta entramos no universo daquele personagem e de suas paixões, com uma trilha sonora não diegética que dá corpo à sua voz, e cujo relato falado mais parece um poema. Uma bonita reflexão, apesar de um pouco breve demais. Vale a pena conferir!

Por Lucas Simões
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 6º semestre

Acercadacana (2010)  – Felipe Peres Calheiros

Os documentários deste ano estão repletos de personagens interessantíssimos, e a figura central deste curta não é diferente:  Dona Maria Francisca, que discursou no palco do festival (momento este que deveria fazer parte de futuras montagens do curta).  Nos primeiros momentos, um advogado conta a história rapidamente:  a usina, querendo maximizar a área de plantio de cana, começa a expulsar famílias de suas terras para derrubar as casas e ampliar o plantio.  Maria Francisca é a única que decide resistir.  Os diretores conseguem acesso a ela e sua família, mostrando como vivem e como lidam com os agentes da usina que aparecem de vez em quando pela área.  O interessante do curta é que funciona como um filme-denúncia de uma história que está ocorrendo neste exato momento.  O filme é bem curto, porém, e muito tempo se passa apreciando a paisagem da área, sem colocar a narrativa para frente.  Apesar de conter as falas da excêntrica persona Maria Francisca e de duas cenas sensacionais, uma em que um guarda foge da agricultora e outra em que ela enfrenta outro empregado da usina, os diretores perderam a parte principal da história, que foi quando tudo começou e também não apontam os rumos possíveis que a história de Dona Maria Francisca poderá tomar.  Acaba se sustentando com muito pouco.
Por Luiz Estevão de Oliveira
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 5º semestre

Braxília (2010) – Danyella Proença

O melhor até agora dos documentários-entrevista do festival, Braxília, sobre o poeta Nicolas Behr, dedica atenção aos mínimos detalhes.  É muito fácil um documentarista fazer um filme bom colocando sua câmera na frente de um personagem fascinante e deixá-lo falar e falar.  É claro que o resultado final fica bom, são personagens com os quais o espectador não interagiria nunca e qualquer chance de explorar as vagarias de suas mentes é informativa e excitante.  Mas este tipo de documentário não se faz apenas com a entrevista.  Volta e meia o diretor e o montador tem de produzir um pequeno espaço, uma leve distração para relaxar a cabeça do espectador.  A maneira mais comum de fazer isso é preenchendo a tela com imagens de paisagem ou time-lapses (onde o filme passa rapidamente e vemos as pessoas e carros cruzando o formigueiro urbano anonimamente).  Mas todos nós já vimos isto um milhão de vezes.  A diretora de Braxília resolve elogiar o espectador, criando vinhetas criativas (uma piada constante é sobre a tentativa do poeta de cruzar o eixão, e outras vinhetas incluem uma brincadeira entre pai e filho e uma cena em que ele escava as letras que compõem o nome da cidade em um aterro vermelho como só o solo de Brasília pode ser).  Não preciso nem mencionar as idéias do filme – Behr é um artista interessantíssimo e eu posso ser um crítico subjetivo, afinal, sou da cidade que ele elogia.  Talvez o apelo do discurso seja menos interessante aos espectadores que não conhecem Brasília, mas a linguagem da diretora não o é.  Nota 10.

Por Luiz Estevão de Oliveira
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 5º semestre

Matinta (2010) – Fernando Segtowick

A história de um homem que lida com a súbita doença da mulher – possívelmente contraída por uma maldição – é, as vezes, horripilante.  E isso é bom, por que este gênero (o terror) está, há muito tempo, negligenciado pelo cinema brasileiro.  O filme possui personagens que, apesar de estarem expostos ao espectador por uma pequena duração de tempo, têm histórias longas e complexas, detalhadas nos diálogos, nos olhares e nas ações dos envolvidos.  A fotografia é estilosa: bem granulada, dando um tom de realidade até nos momentos mais sobrenaturais da trama. O enredo, que fala de sedução, traição e culpa, derivados de acontecimentos que, em sua maioria, devem ser inferidos e não explicitados, confia na inteligência de quem assiste ao filme, para que ele preencha os conceitos que os personagens tem uns quanto aos outros em sua complexa teia de relacionamentos.  Também nos mostra um cenário e uma cultura muito pouco visada nos filmes de ficção do nosso cinema.

Por Luiz Estevão de Oliveira
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 5º semestre

 

Falta de Ar (2010) – Érico Monnerat

Filme de Brasília que se passa em dois tempos: durante a ditadura setentista e durante os dias de hoje.  O perfil é de mega-produição e neste quesito o curta não desapontará ninguém.  A direção de arte, que requeriu vários objetos cênicos de difícil acesso e um figurino estiloso, é bem trabalhada. Os atores estão todos a ponto de bala e a fotografia (colorida nos anos 70 e p&b na atualidade) está afinadíssima.  As tramas, que decorrem paralelamente, são interessantes.  Nos anos setenta, dois guerrilheiros são capturados pela polícia e têm que encarar a tortura e as ameaças dos agentes que buscam informações.  Nos dias de hoje, um senhor à beira da morte  habita a mesma casa na qual sua filha lida mentalmente com os eventos daquele dia juntamente com olhares ameaçadores de seu neto, que ameaça descobrir algo do passado.  O interessante aqui é um diretor jovem lidando com fatos de um Brasil que ele provavelmente não conheceu tão bem quanto os realizadores mais antigos.  Seu curta, portanto, não está preocupando com os pontos de vista políticos dos seus personagens, mas sim com a contextualidade da violência, tema tão presente nos filmes da “nova geração.” Não existe a troca de idéias entre os envolvidos, e sim a explicitação da brutalidade.  Nos anos 70 o interrogado é torturado com a cabeça em um tonel de água, e na atualidade o neto observa um peixe que ele removeu do aquário da casa e assiste ao seu sufocar.  O avô, que é revelado como o torturador, o vê, e decide compartilhar com o neto a paixão pela máquina fotográfica que ele usava durante as sessões de tortura.  O filme é bom, e de fato discute alguns temas e ideias, mas o roteiro não surpreende e o desfecho da trama atual é um pouco insatisfatório, pois não nos relacionamos com os personagens desta família.

Por Luiz Estevão de Oliveira
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 5º semestre

 

O Céu Sobre os Ombros (2010) – Sérgio Borges

Uma nova linguagem está sendo criada no cinema brasileiro.  Com o crescimento urbano do Brasil, os filmes pensativos e filosóficos, aqueles com um toque de “social” deixaram pra trás os trabalhadores rurais e agora seguem com os habitantes anônimos das grandes metrópoles brasileiras.  Só que aqui o enfoque é outro.  Enquanto os personagens de filmes como Vidas Secas, de 1963, lutavam pela sua sobrevivência física, os de hoje lutam pela sua sobrevivência moral.  A
luta não é pelo corpo, mas pela alma.
Os inimigos não são a fome, a sede e o cansaço, mas sim a busca pelo autoconhecimento, a falta de reconhecimento e a claustrofobia desta selva de cimento.

Seguimos o dia-a-dia de três pessoas: um rapaz que trabalha em um call-center, um travesti que se prostitui e um autor que precisa cumprir um prazo para ser publicado.  São todos jovens e cada um tem uma complexidade e tridimensionalidade ilustrada por pequenas surpresas em suas rotinas.  Não as revelarei. Apenas direi que uma é religiosa, uma intelectual e outra familiar.  Estas características são as únicas que destacam eles de pessoas completamente anônimas.

Se o filme fosse feito há 10 anos, as vidas destas 3 pessoas se cruzariam, geralmente de maneira trágica.  Mas hoje isto mudou.  Eles não compartilham nenhuma cena e portanto nem interagem.  A discussão sobre o filme  tem que se basear principalmente neste novo movimento cinematográfico, porque não temos nada que poderíamos chamar de narrativa aqui.  Sequer temos conflitos, e sim características.  Para ser assistido, o filme tem que ser curto, o que é o caso com este filme, que dura 72 minutos.  Acaba tão repentinamente quanto começa, sem deixar nada resolvido.

Por Luiz Estevão de Oliveira
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 5º semestre

My Way (2010) – Camilo Cavalcante

Acompanhamos um homem saindo de casa ao som de My Way de Frank Sinatra, música homônima ao título do filme. Cabeça baixa, passos lentos. Somos conduzidos a uma jornada experimental ao lado dele. A câmera estática, aberta, vista de cima, retrata o trajeto solitário deste homem. A cidade sem movimento realça a sensação. A canção gradativamente se intensifica. A cidade está mais cheia. A tensão do homem aumenta. Temos cortes mais rápidos, planos mais fechados. A caminhada termina no meio do bloco carnavalesco Galo da Madrugada. Nesse momento ocorre a catarse. O homem derrama seu pranto, transparece sua dor, sua melancolia. Um pontinho diferente no meio da multidão.

Por Bruno Lôbo Campos
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 6º Semestre

 

Herói (2010) – Thiago Ricarte

Ouvi de fulano que ouviu de beltrano que ouviu de sicrano. É aquele velho mesmo ditado de que quem conta um conto aumenta um ponto. Herói conta a história de um poeta em seus últimos dias de vida. Frustrado por ter vivido uma vida comum o poeta deseja reescrever sua vida, criar nela uma verdadeira epopéia, se tornar um imortal. Tarefa que caberá aos seus dois súditos que permanecem com ele em seu leito. O tempo situado na época do Brasil Colônia desperta nossa atenção para arte, que nos prende a atenção durante todo o filme. O filme abusa da comédia, marcante visualmente e nos diálogos. Um dos súditos nos envolve com seu carisma e ingenuidade atenuando o apelo das piadas visuais e seu humor nonsense (como, por exemplo, colocar o dedo no nariz durante uma conversa). O outro faz o contraponto e executa o discurso fílmico. É o cara que vai dar uma vida nova ao poeta. Este, em sua euforia, tem em seu texto a piada sobre a vida. O filme nos fala sobre a nossa necessidade por lendas, imortais, mais que isso: heróis; e também a necessidade do humor.

Por Bruno Lôbo Campos
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 6º Semestre

O Monstro do Lago (2010) – Guilherme Barros

O Monstro do Lago é um documentário brasiliense de Guilherme Barros que fala sobre a poluição do Lago Paranoá. Utilizando-se de entrevistas como embasamento teórico, o filme tenta pregar o mito de um monstro que vive no lago. O diretor entrevista pesquisadores e autoridades de entidades ligadas diretamente ao problema da poluição. São discutidas questões como o lixo despejado, o assoreamento, a utilização de água do lago para consumo e os riscos aos usuários. O filme mescla o documentário com partes ficcionais. A narrativa ficcional fica por conta de criar o mito do monstro, é responsável pela dúvida da presença física dele, mas não funciona. O espectador não se sente convencido do argumento, a direção e montagem a la “Tubarão” de Spielberg não causa impacto. A presença do repórter pontuando o filme nos atenta para a reflexão do tema, mas sem muita profundidade. Tirando o suspense de lado, de certa forma o filme consegue atingir seu objetivo principal que é chamar a atenção para o monstro apresentado: a poluição.

Por Bruno Lôbo Campos
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 6º Semestre

 

Chorando na Chuva (2010) – Lello Kosby

Chuva, muita chuva. Temos imagens e gravações, externas e internas, de uma casa vazia. Uma vida triste e solitária se faz presente nesse lugar. Eis que aparece um presente à porta de casa: um bebê chorando. Fim da época de chuvas?

Por Bruno Lôbo Campos
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 6º Semestre

O Grito dos Filhos da Terra (2010) – Constanza Ospina Sydney Possuelo – Uma Vida Amazônica (2010) – Roberto Stefanelli

O Grito dos Filhos da Terra e Sydney Possuelo são dois filmes que abordam de maneira diferente a questão indígena. O filme de Constanza retrata a causa indígena, a luta dos índios, que hoje se unem por toda a América, no Planalto Central pela defesa de seus valores, costumes, crenças, direitos que vêm sendo violados. O filme mostra que os povos indígenas têm consciência política e sabem lutar pelo que quer, mas além da política os índios têm a consciência ambiental. Defendem, cuidam e protegem a Mãe Terra com unhas e dentes. É uma força que vem do espírito para lutar pela natureza e por seu povo. Sydney Possuelo é um sertanista que dedicou sua vida ao estudo dos povos indígenas na Amazônia. Seus relatos contam sobre a invasão do “homem branco” na vida dos índios. Invasão responsável pelo desaparecimento de comunidades e da cultura desse povo. Sydney nos conta um pouco sobre o que viveu, o que viu e o que sentiu. Os curtas certamente passaram a sua mensagem.

Por Bruno Lôbo Campos
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 6º Semestre
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