#Crítica: mostra brasília 26/11

Entre vãos, de Luísa Caetano, 19min50, DF

A vida de uma família na comunidade kalunga, em um lugar isolado da região da chapada dos veadeiros, no norte de Goiás, é o ponto de investigação deste documentário assinado por Luísa Caetano. Exibido na mostra competitiva digital o filme encantou o público ao se utilizar de um olhar poético para retratar o cotidiano, dilemas e perspectivas dessa remanescente comunidade quilombola. A diretora acerta ao optar pela sutileza e ir além da gramática etnocêntrica e do documentário de entrevista clássico. A forma remete, inevitavelmente, a Eduardo Coutinho, no modo como conduz as entrevistas e de como desloca a própria equipe de filmagem para dentro do quadro. A narrativa cresce e cativa na medida em que a realizadora conduz suas perguntas, a fim de extrair dos personagens o conteúdo mais caro a partir, sempre, de uma simplicidade que rejeita o tom de pesquisa. A liberdade da obra é, em última estância, a liberdade dada aos personagens nas suas prosaicas manifestações.

Por Cássio F. Oliveira

A dois palmos, de Pollyanna Carvalho e Rebeca Tschiedel, 2omin, DF

A dois Palmos é marcado por uma atmosfera e construção de cenas que revela ali uma autoria. A realizadora compõe uma peculiar misce-an-scene e conduz o filme comedidamente, o que faz com que não se torne um melodrama familiar lugar- comum. Acerta também ao não entregar seu filme a significados em diálogos retóricos. O roteiro, excelente, é canalizado para a protagonista, que traumatizada pelo desaparecimento da filha é levada a cometer um ato trágico extremo. A personagem é vivida por Virna Smith que prova talento ao nunca comprometer o que o roteiro lhe exige, suportando corretamente a tal responsabilidade. A dois palmos é uma obra latente, porém algumas decisões formais enterraram seu potencial, uma delas é o efeito de imagem ‘Groundhause’ usado. No todo o filme, de fato, é coerente e sua unidade é esforçadamente mantida.

Por Cássio F. Oliveira

Dissolução-Hipervazio e solidões, de Júlia Lucini e Lucas Venturim, 17min35, DF

Luzes, reflexos e simulações. O pré-discurso que justifica o significado da imagem deste documentário é construído a partir de um poema escrito pelo próprio diretor. É curioso como a câmera entra no espaço urbano para acentuar um olhar sobre a sociedade, hipervazia, urbana e contemporânea. O tema da solidão é um tema recorrente pra traduzir a geração atual perdida na tradução das relações. Aqui, inclusive, as pessoas são transformadas em reflexos e simulacros de si mesmas. O olhar é truculento e pessimista, não há nada que tenha valor orgânico neste filme. As relações, mesmo na tentativa de ser travada, mostran-se sempre insuficientes. Esse mundo, para o olho da câmera, é feito de imagens forjadas e sensações artificiais e não há absolutamente nada que prediga esperança. O tom apocalíptico domina o discurso e a narrativa não consegue, e nem pode, transgredir a repetição das imagens, pois é tudo que o mundo pode oferecer. Como a própria câmera que vigia onipresente o espaço o especator é obrigado a perceber o mundo vigiado pelo deus-sistema, que se dilui na sua própria pretensão. Meu igual meu irmão é não menos que o próprio eu preso em modelos e padrões.

Por Cássio F. Oliveira

O forró daqui é melhor do que o seu, de Kleber Robson, 18 min, DF

O diretor Kleber Robson parece ter subido no palco do teatro apenas para proferir discursos da política oficial. Mostrou-se engajado ou demagogo (como quiserem!) quando na apresentação do seu filme, a qual de nada falou a respeito, proferiu suas indignações. A inflamação do discurso, com tudo, não faz par com o filme apresentado. Tentando misturar – grosseiramente, documentário e ficção, o realizador mostra-se perdido e suas referências não menos que toscas. Um filme tão inexplicável quanto o seu discurso. Agora faz sentido o apelo da platéia frente a suas falácias: “cadê o cinema?”.

Por Cássio F. Oliveira

“Últimos Dias” (2010) – Yves Moura

O filme de Yves retrata o último dia de funcionamento de um restaurante e como os personagens lidam com a situação. Uma história simples, presente no cotidiano. As atuações também puxam para esse lado naturalista. O dono: um português que se orgulha e gosta do que faz, a cliente: uma doce senhora que sempre freqüentava o local, o garçom: um jovem muito gentil que atendia e tratava todos generosamente, especialmente a velhinha. A câmera fica tempo todo parada, a mise’en’scène acontece para ela. A fotografia brinca bastante com a profundidade de campo, diminuindo-a quando quer ressaltar a preocupação de cada personagem. Tudo muito sutil e delicado. O filme tem um grande esmero com a parte técnica, tanto na fotografia quanto no som, na arte. No final temos o português, o primeiro a entrar e o ultimo a sair do lugar, na sua dificuldade em abandonar o restaurante; o jovem garçom perdido em pensamento com a incerteza de seu futuro e a bondosa velhinha imersa na solidão de sua casa. O filme mostra que tudo tem um fim, e é inevitável.

Por Bruno Lôbo Campos
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 6º Semestre

“Queimado” (2010) – Igor Barradas

Logo de cara somos introduzidos a um ambiente fechado onde rola uma festa, música pesada, muita pessoa para pouco espaço, movimentos frenéticos, cortes rápidos. Essa introdução já representa psicologicamente e imageticamente o que é Grande, o personagem principal do filme. Há o corte para o título: Queimado. Depois um corte para um “inocente” jogo de Queimada na rua, onde jovens brincam ao olhares dos adultos. Talvez essa inocência signifique o que é Janaína, um garota que ali brinca, mas ela cresceu e está se tornando uma mulher. Grande não a vê inocentemente e começa a segui-la. Janaína quer se mostrar mulher perante amigas e colegas. Tomadas retratam Grande relutante em pensamento. Ele a aborda na rua e a leva para um local inóspito, seus instintos afloram. Ele tenta estuprá-la, ela oferece resistência, mas ele o faz, não segurando seus impulsos. As conseqüências chegaram. Janaína está grávida e ao lado de Grande. Janaína foi acertada por Grande e entrou para o grupo dos queimados nesse jogo.

Por Bruno Lôbo Campos
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 6º Semestre

 

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