#Críticas – Mostra competitiva 35mm 25/11

Angeli 24, de Beth Formaggini

Desde a década de setenta Angeli (Arnaldo Angeli Filho) cria suas histórias e personagens e desenvolve seu humor mórbido, sofrendo de crises e muitas vezes precisando matar seus próprios personagens. Dentro dessa rotina ele se tornou escravo da obsessão que criou por seu trabalho, para evitar se repetir e aperfeiçoar a sua forma de criar humor, mesma razão pela qual matava suas criações. Beth Formaggini, documentarista carioca formada em História pela UFF, coloca o artista Angeli de hoje em uma entrevista formal, onde ele fala sobre suas preocupações atuais, seu trabalho atual e faz um paralelo com o Angeli que o público conheceu através de seu trabalho, seus personagens, suas crises, etc. Ele explica como seu trabalho se manteve da maneira que está devido à obsessão que ele criou em cima dessa atividade, sempre desenhando, sempre criando, sempre sentado em sua mesa, e confessa que ele precisa de tal obsessão.

A entrevista é feita com o artista em um ambiente escuro com uma parede branca pintada de preto ao redor dele, criando uma espécie de aura, com uma mesa com seus objetos de trabalho e uma cadeira onde ele se senta iluminado por um único ponto de luz, fazendo sua entrevista parecer mais um monólogo teatral. No mesmo ambiente também são projetadas algumas tiras na parede onde é feita a entrevista que ajudam a contextualizar/guiar a fala de Angeli, inclusive em determinado momento, mais adiante no documentário, Angeli fica na frente da projeção e se mescla com a tira e se encontram artista e obra. Entrecortam a entrevista imagens da cidade em alta velocidade, nos aproximando do clima urbano e veloz do cotidiano do autor também existente em suas histórias, e imagens de tiras mostrando seus personagens famosos e também ajudando a contextualizar a voz over do autor. Mostra-se também – ao longo do curta – uma tira que o autor cria para a próxima edição da Folha de São Paulo, acompanhando o processo de desenho, finalização, pintura e resultado final na folha do jornal.

Com muitos momentos de boas gargalhadas o documentário é um relato interessante de um grande personagem que possui seu próprio mundo de baderna, mantido com uma boa dose de obsessão. Recomendado!

Por Lucas Simões
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 6º semestre

Documentário que entrevista o cartunista Angeli, figura tão interessante e engajante que o filme não precisa ter mais nenhuma voz.  O único que fala é o próprio, que discursa sobre seus métodos, seus personagens, sua vida e seus personagens, sem que nenhuma voz, mesmo offscreen, faça perguntas ou guie o entrevistado nas diversas direções.  Aliás, o filme se enfrasquece quando foge de Angeli para mostrar sequencias de time-lapse acima de uma rodovia, em frente a uma padaria ou com os rostos de diversos pedestres.  O motivo para isso é óbvio: a diretora tenta explicar Angeli pela influência urbanística, mas esquece que ele é mais que isso, uma pessoa verdadeiramente interessante.  Mesmo que ele se definisse exclusivamente pelo urbano, a forma de retratar isto não foi das mais originais.  A trilha sonora e os cartuns do próprio Angeli, vários dos quais são exibidos no filme, formam o outro ponto forte da obra.

Por Luiz Estevão de Oliveira
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 5º semestre

 

Contagem, (2010) de Gabriel Martins e Maurilio Martins

Para quem não conhece a cidade de Minas Gerais que dá título ao filme a obra pode sugerir uma história diferente da que realmente acontece. Com um estilo de narrativa não-linear mostrado através de diversos pontos de vista o filme circunda acontecimentos anônimos da cidade de Contagem, sem demais detalhamentos ou explicações, transformando Contagem em uma cidade de paixões, tragédias, dramas e mentiras como qualquer outra.

A cidade acompanha a vida de personagens que se amam e, de repente, deixam de se amar, da vida que se transforma em morte, das conversas que perdem a importância, da fidelidade que é mantida aqui e maculada ali, das coisas que começam e terminam sem qualquer razão, ninguém sabe, não importa, aconteceu. O protagonista, nesse caso, o ponto de vista principal é o da própria cidade. O filme nos é contado como se alguém nos estivesse contando, como se tivéssemos ouvido a história das outras pessoas daquela cidade, ao invés dos protagonistas, pessoas que viram isso, que ouviram aquilo, que acham não sei o que, mas que quando a gente pergunta o que aconteceu de verdade, porque – do nada – ficou do jeito que ficou, ninguém sabe. Claro que a falta da explicação gera alguma frustração, mas história de cidade é assim. Assistam!

Por Lucas Simões
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 6º semestre

O filme gira em torno de um evento transformativo na vida de um casal, mas exibe um ponto-de-vista de cada vez, utilizando-se assim da linguagem do flashback e da repetição de cenas para unir os destinos dos principais.  Trilha, direção e atuações excelentes, embora o roteiro evite surpresas.  Os diretores mostram talento principalmente na fotografia, que está sempre mostrando apenas o que o espectador precisa saber, revelando algumas tramas de migalha em migalha.  É interessante também imaginar o que acontecerá com o casal central após os eventos do curta, e até caberia um pouco mais de tempo para explorar a relação entre eles melhor.

Por Luiz Estevão de Oliveira
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 5º semestre

Transeunte (2010), de Eryk Rocha

Transeunte é um filme mais poético do que narrativo.  Nele acompanhamos um senhor aposentado pelas ruas do Rio de Janeiro enquanto ele vai vivendo sua vida.  É uma vida solitária e o começo do filme é oprimido por um silêncio que só se rompe aos 20 minutos, com um noticiário de televisão.  Nosso protagonista só tem seu primeiro diálogo aos 30 minutos.  Para suprimir o silêncio de sua vida ele carrega em si um pequeno rádio portátil.  Volta e meia compartilhamos as mesmas informações ao ouvirmos os programas de rádio, as conversas das pessoas sentadas ao seu lado nos bares e nas ruas.  O espectador está observando um observador que observa o mundo ao seu redor, e muito do que ele vê é sobre relacionamentos, coisa pela qual ele anseia mas se vê incapaz de realizar.  Ao longo do filme ele vai vagarosamente se soltando, até que resolve ter uma experiência coletiva no fim de noite de um bar com música.

O ator principal, Fernando Bezerra, merece um destaque.  Além de ter um rosto fenomenal para o cinema, onde cada poro e cada ruga contam uma história, durante quase o filme inteiro, seu rosto é seu único meio de comunicação.  Sem poder dialogar, sem poder se posicionar devido ao grande número de close-ups ele arrasa ao interpretar seu personagem.

A fotografia do filme, seu segundo ponto forte, também merece um parágrafo só seu.  Exibido em preto e branco, cada quadro,m cada plano do filme busca a poesia, e a maioria é bem sucedida.  É uma linguagem que usa e abusa dos close-ups e dos planos-detalhe, todos empenhados no liricismo observacional do protagonista e do espectador.  Sempre observamos detalhes ao nosso redor, tanto nos objetos quanto nos rostos das pessoas, por que aqui seria diferente?

Porém, (e um grande porém), o filme não é para qualquer um, especialmente quando se trata da velocidade bem lenta e vagarosa com a qual a vida vai se desdobrando.  É uma escolha do diretor, que faz questão de mostrar a solidão da vida deste transeunte, mas não existe a garantia que o rosto de Bezerra ou a fotografia vão conseguir prender o espectador durante todos os 100 mins de duração.  A maior falha do filme, o quesito que alienará especialmente as gerações mais jovens, é que a monotonia desta vida não fica apenas na tela, mas passa também para a experiência do espectador.

Também seria difícil não mencionar que Eryk é filho de Glauber e no que parece ser uma influência direta do pai, em uma das cenas do final do filme, um homem descabelado exclama em praça pública intelectualismos sobre Deus e o reino de amor que virá para o planeta terra.  Tudo nesta cena é Glauberiano, desde o personagem e sua linguagem até a câmera, que o circula e se aproxima.  Esteja onde estiver, é provável que o velho se sinta lisonjeado.

Por Luiz Estevão de Oliveira
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 5º semestre
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