#Crítica – Lílian M: Relatório Confidencial (Carlos Reichenbach, 1975)

 

 

Produzido em 1975, Lilian M: Relatório Confidencial, de Carlos Reichenbach, é o tipo de filme que pede um certo tipo de comprometimento do espectador.  Não chega a ser ame-o ou deixe-o, mas chega perto.  Mas o filme não está nem um pouco preocupado com isso. Depois que a jornada começa, ele não está mais preocupado com você.

Começamos com José e Maria, um casal rural com dois filhos. Não, peraí um segundo, antes disto começamos com um gravador – e com um par de vozes.  Uma é a de Maria, ou de Lilian, outra é de seu confessor (talvez o próprio diretor?).  Pois o filme é uma confissão, uma história literalmente contada, e carrega em si a mesma subjetividade temática de nossas recordações.  Lilian narra sua epopéia urbana sem pudores, pois parece equacionar sua busca de autoconhecimento com sua busca pelo prazer.  Ela cai nos braços de todos os homens que passam pela sua frente, numa mistura esquizofrênica de liberdade feminina e confusão sexual.

Falando em esquizofrenia, por que não misturar um pouco do cinema marginal, estilo Meteorango Kid, com duas partes de Macunaíma e leves pitadas de, claro, Godard?  Pois Lilian M. passa por todas estas influências e mais: adiciona um ponto de vista humorístico que é todo seu, para formar uma identidade própria.  Com meros vinte minutos de apresentação já sabemos por que este filme foi restaurado – são poucas as jóias como esta que sobrevivem no nosso cinema.  Pop e moderno, às vezes até metafísico, vemos no filme vários truques e linguajares usados pelos diretores de hoje favoritinhos do público universitário.

Esta estética forma um ponto importante, pois se engana quem pensa que a equipe deste filme simplesmente apareceu no dia de filmagem e deixou rolar.  A direção de arte, com dezenas de locações diferentes e uma paleta de cores essencialmente setentista, com certeza requeriu custo, atenção e trabalho.  Os vários set-ups de câmera (ora personagem, ora espectador, ora voyeur) indicam tempo, tempo e tempo.  Não vou nem mencionar o trabalho que deve ter sido montar esta obra numa moviola, baseado nos quilômetros e quilômetros de película que devem ter usado.  O trabalho do elenco mostra que todos eles ficaram mais comprometidos do que em vários outros filmes que julgamos mais “sérios”, especialmente a atriz principal, Célia Benvenutti.

Começamos com ela, que é Maria, que será Lilian, e seu marido, José.  Completamente infeliz e estática em sua vida, especialmente no sexo, atividade esta explorada pelo diretor em todos os relacionamentos da personagem, ela foge com um vigarista da cidade que fica feliz em achar que a seduziu, mas que, em uma das mais fascinantes sequências do filme, é deixado morrendo na beira da estrada. Ao longo do filme Maria, esta figura Kariniana (Godard de novo) chega à cidade e se relaciona com um industrialista, seu filho rejeitado, um alemão, um grileiro de terras, um marginal e um personagem da classe média.  São todos arquétipos e estereótipos, mais caricaturas de um período da história brasileira do que personagens tridimensionais.

E talvez esteja aí a falha principal do filme: ao se recusar a delinear uma narrativa baseada num conflito central menos abstrato do que o autodescobrimento da protagonista, ele depende completamente do humor e da caracterização dos coadjuvantes para manter o interesse do espectador.  Conhecemos personagens interessantíssimos como Fausto, um bailarino insano, Scorpio, um detetive particular completamente incompetente e um grileiro pseudo-intelectual.  Mas outras seções, como a de Gonçalves e sua irmã Lucivalda são vagarosas demais, e desprovidas do humor que caracteriza o resto do filme.  Esta última vinheta, em especial, ocorre no final do filme, quando quem assiste já está se remexendo na cadeira e, no caso da abertura do festival, as conversas paralelas de quem assiste começam a ficar cada vez mais altas.  De fato, o filme se beneficiaria com uma redução em seu tempo.

No final, Lilian volta com seu marido rural, numa cena que acentua a tragicomédia do título do filme.  Cômica, pois lá está ela, com roupas modernas e minúsculas, beijando e abraçando seu marido, ladeada pelos dois filhos pequenos e um cachorro.  E trágica, pois, após uma única noite de amor, lá está Lilian, no raiar do sol, fugindo novamente de mala e cuia, uma esfinge Reichenbachiana presa eternamente num ciclo de insatisfação.

Por Luiz E. de Oliveira
Aluno de Cinema e Mídias Digitais IESB – 5º semestre

O filme de Reichenbach conta a história de Lilian, ou Maria, seu nome real, uma bela mulher do interior que sentia pouco apelo por aquela rotina, até que um homem desconhecido surge em sua vida e a convence a abandonar aquele cotidiano. Daí em diante, Lilian convive com vários homens, os quais se apaixonaram por sua beleza e humildade e que lhe proporcionam vidas diferentes, umas cheias de luxo e outras sem luxo algum. O drama do relato de Lilian sobre sua vida é suavizado por uma linguagem irônica que permeia todo o filme, e seus personagens-tipo funcionam harmonicamente para passar sensação ácida e algumas vezes crítica daquelas situações da vida real. Apenas Lílian, depois de todo o seu trajeto, se transforma de maneira que não consegue mais voltar a ser uma mulher tranquila do interior. Com referências sutis a Godard e Antonioni, este filme da época das pornochanchadas ressurge em sua versão integral, sem a tesoura da ditadura, para nos banquetear com risadas e personagens memoráveis como geralmente acontece no bom cinema nacional.

Por Lucas Simões
Aluno de Cinema e Mídias Digitais – 6º semestre
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