Produção crítica: Fellini 8 e 1/2

Nosso crítico da casa, o estudante Lucas Simões, escreve sua analítica visão sobre o difícil ato de decifrar 8 e 1/2 de Fellini.

Quando se lida com criação é comum haver em algum momento episódios de ‘bloqueio de inspiração’. Alguns criadores inclusive utilizam o próprio bloqueio como ferramenta inspiradora, o que nem por isso gera bons resultados. Não é porém o caso do filme desta quinta-feira (12/08), “8 ¹/²” de Federico Fellini. Esse filme fora idealizado pelo bloqueio de criação do próprio Fellini, e possui portanto um caráter autobiográfico que se estende ao âmbito biográfico, pois fala não somente da vida do diretor, mas da vida de todos nós. Na trama, um famoso diretor de cinema, Guido Anselmi (Marcello Mastroianni), vai para um retiro espiritual curar uma doença indeterminada, onde tenta superar seu bloqueio de criação e descobre que sua incapacidade não se restringe apenas ao seu lado artístico, como também ao seu lado espiritual e emocional.
A primeira aparição do personagem principal já traduz e sintetiza todo o seu sentimento interior ao longo do filme: asfixia, desconforto, aprisionamento. Por todo o filme ele sempre está rodeado de pessoas que o enchem de perguntas, pedindo algum direcionamento ou opinião, enquanto ele nem mesmo conhece as respostas. Assim sendo, ele se utiliza de qualquer artifício para fugir do presente, sejam os poucos conhecidos que ele vai encontrando em sua estadia, sejam suas próprias lembranças. Ele não sabe o que é o seu filme e nem pode dizer que não sabe, porque já chegou longe demais: resta apenas curar-se do bloqueio. Deposita esperanças em quatro pessoas: um crítico de cinema (Jean Rougeul), Claudia (Claudia Cardinale), uma atriz famosa, Rossella (Rossella Falk), sua confidente, e o cardeal, representante – na época – da religião e do estado; eles possuem respostas, mas não as que ele quer ouvir. Da mesma forma que ele não tem as respostas, tampouco as têm os outros. O “filme” que Guido está realizando é representado pelo gigantesco cenário da espaçonave, na qual toda a equipe embarca, menos ele: já sabe que não decolará. O confronto final se dá na coletiva de imprensa, onde ele é desmascarado e perde tudo. Após isso ele consegue novamente tomar as rédeas, ou melhor, o volante – o que tentou fazer no início do filme, mas falhou – e direcionar sua vida.
A direção de arte é muito rica, com muitos figurinos suntuosos e cenários gigantescos. Guido se veste como homem comum, terno e gravata, e seus cabelos mesclados entre preto e grisalho lhe conferem um ar experiente e igualmente ajudam a reforçar seu tom debilitado ao longo do filme. Carla se veste com belas roupas que lhe conferem ar nobre e sensual, contrastando com sua personalidade simples e divertida. Luisa se veste com discrição e pureza, de branco, o que ajuda a realçar o clima tenso entre ela e Guido (que se veste de preto), e seus cabelos curtos refletem poder e independência. Claudia, nas fantasias de Guido, se veste de branco, com roupas curtas, leves e puras – como se ela representasse uma idealização de mulher para ele, meio que uma projeção de como Luisa deveria ser – e quando se encontram ela está toda coberta de preto, cheia de plumas, nebulosa, poluída, distante do que ele esperava.
A fotografia essencialmente naturalista remonta ao neorrealismo, fugindo do naturalismo em algumas sequências lúdicas. Os cenários são valorizados, com poucos planos fechados em personagens. Quando há, buscam valorizar falas ou expressões – pois o cenário é essencial para expor informações e avançar a trama. Destaca-se o uso de travellings que dialogam bem com os enquadramentos estáticos e, juntamente com o som, ajudam a crescer (trilhas sonoras tensas) ou diminuir (som do vento) o ritmo. A fotografia é em sua maior parte “limpa”, com cenários brancos, sem muitos detalhes, poucas pessoas em quadro ou grandes enquadramentos de grupos de pessoas: há bom equilíbrio entre o tanto de cenário que aparece e o tanto de personagens.
“8 ¹/²” é um filme que fala um pouco com cada um de nós, de cada um de nós. Narra com muito bom humor e beleza poética a desconstrução de um homem que se recusa a admitir sua incapacidade criativa, enquanto tudo ao seu redor quer se construir (seu filme) ou se reconstruir (seu casamento). Um dos melhores filmes da história do cinema.
Lucas Simões da Silva Pereira – Cinema e Mídias Digitais – 6º semestre – Noturno.
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