Produção crítica no CINECLUBEIESB

Desejo e Obsessão, Claire Denis, 2001.

Paulo Lannes, curso de Jornalismo.

Foi lançado em 2003 que pela França, Alemanha e Japão. Dirigido por Claire Denis, o filme chamou atenção pela marca pessoal dela ao produzi-lo de forma peculiar. O roteiro fragmentado, a falta de diálogos, as ações rápidas e diretas e o culto ao corpo humano são características que a encaixam no conceito de “filme de diretor”. Bastante polêmico, fez parte da seleção oficial no Festival de Cannes.

No geral, o filme se mostra mais como uma ficção científica do que um drama (que é o seu gênero oficial). Shane e Coré foram acometidos por uma doença que faz aumentar suas libidos e dá a eles desejos de morder e rasgar a pessoa com quem está se envolvendo sexualmente. Mas os dois agem de forma diferente. Enquanto Coré se entrega completamente à sua loucura sensual, Shane corre atrás de uma cura enquanto pode.

Nas aparências, Shane e June são apenas um casal de lua de mel em Paris. Demonstram afetos em público e parecem felizes. Ledo engano. Entre as quatro paredes, não há uma real intimidade e Shane faz de tudo para não se relacionar com June, preferindo se masturbar. Ela não entende o porquê disso e passa a se frustrar cada vez mais, enquanto Shane só a quer proteger da doença.

Coré e casada com o médico Léo Semenau, responsável pela doença que a tortura. Expulso da comunidade científica, passa a trabalhar em casa, podendo assim prestar mais atenção em sua mulher. Ela, na primeira oportunidade,, foge da casa e encontra um caminhoneiro, que quer transar com ela e acaba por ser devorado pela mesma. Léo, ao encontrá-la sobre o corpo de seu amante, a tranca no próprio quarto.

Num passado, Shane e Léo trabalharam juntos. Eles produziram um remédio que provocou tal doença, mas Shane, que mantinha um caso extraconjugal com Coré, decide testar o remédio em si mesmo (e acaba passando para a amante). Depois disso, todos se afastam sofrendo suas próprias consequências.

É perceptível que os valores morais passam quase que despercebidos. O médico prefere prender sua mulher em casa ao invés de lidar com as mortes que ela causa (e pode vir a causar). Shane não se culpa por trair e continuar traindo. E a empregada do hotel é cleptomaníaca e se mostra atraída por um homem casado (o próprio Shane).

O conflito acontece quando Coré se liberta do quarto após dois jovens entrarem clandestinamente na casa e um se mostrar atraído por ela. Enquanto ela devora o rosto desse jovem, o outro foge. Nesse momento, a câmera consegue captar o auge da loucura de Coré, no qual tudo que havia de humano já tinha sumido. Shane aparece na casa e vê toda aquela barbárie. Assim, ele a estrangula até que ela morra. Talvez ele tenha feito isso por ter certa moral e não aceitar que alguém assim viva, ou talvez ele simplesmente não aceitasse aquilo que seria o seu provável futuro: se transformar num verdadeiro animal. Por fim ele vai embora e, enquanto a casa se corrompe em chamas, Léo aparece e percebe que sua amada esposa havia morrido.

Em  meio a tanta tensão, surge em cena algo inexplicavelmente suave e inocente: um filhote de cachorro. Esse filhote rouba toda a dor que o filme transpassa e dá ar de esperança ao personagem principal e até mesmo ao espectador. Parece até ironia a ato de mostrar traços de humanidade em um animal enquanto os seres humanos passam a ser desumanizados. Mas também há duas mulheres no filme que se mostram inocentes (apesar de seus defeitos): June e a copeira. Porém, um final trágico é reservado às duas.

Shane, ao voltar para o hotel, sente o cheiro da copeira em sua cama e decide ir atrás dela. Talvez todo o massacre na casa de Coré tenha ativado de uma vez por todas o lado sexual e animalesco que estava escondido nele. Ao se encontrarem, ele não se contém e faz sexo com ela, mesmo havendo uma resistência da parte dela. Contendo-se menos ainda, começa a devorá-la, rasgando suas genitais e seu rosto, terminando por matá-la. Ao voltar para seu quarto, entra no banho, eliminando os vestígios de sua primeira caçada. Quando June o encontra e o abraça no banheiro, ela vê um fiapo de sangue e finalmente entende o seu futuro. E ele não lhe é nada agradável.

Trazendo mais revelações do que aberrações, o filme se mostra um verdadeiro estudo físico (e até psicológico) do corpo humano. Há uma grande reflexão sobre a lenta mudança do homem que chega ao nível animal. A fotografia “viva” do filme surpreende com a tomada próxima do corpo e chega a uma conclusão: nós somos somente carne, nada mais do que suculenta carne.

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