Produção crítica dos alunos – Professora de piano e Anti-herói Americano

Nossos alunos têm demonstrado capacidade analítica e posicionamento pessoal no momento de escrever sobres os filmes que temos visto no cineclube.  Além disso, a orientação crítica, a capacidade de desenvolver não apenas profissionais aptos para tecnicamente realizar o cinema, mas também o pensamento sobre ele, é um dos postulados de nossa faculdade. Nesta leva, Adriano, 4 semestre, e Lucas, 5 semestre, escrevem sobre o caráter intermidial e biográfico do divertidíssimo Anti-herói Americano. Já Marconi Martins, 6 semestre, faz excelente leitura analítica e pessoal do filme A Professora de Piano, de Michael Haneke, aproveitando debate realizado com o psicanalista Luciano Lírio.

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Desestruturações Internas

Marconi Martins, 5 semestre

As possibilidades narrativas, estilísticas e temáticas desenvolvidas pelo cinema, ao longo de sua história, desautorizam identificá-lo com alguma inequívoca função artística (representação do belo, mimetização do real, provocação estética), ou mesmo vinculá-lo a uma dada propriedade intrínseca (meio de entretenimento, aparato contemplativo, suporte escapista).

A singularidade de A Professora de Piano, de Michael Haneke, está em seu não-alinhamento a nenhuma dessas designações. O filme se coloca pretensões epistemológicas, enquanto obra de arte, valendo-se, para tanto, do meio expressivo do choque, como recurso narrativo oposto à gratificação sensorial, geralmente associado à sétima arte.

A história gira em torno de uma professora de piano, Érika, cuja convivência conturbada com a mãe, a relação doentia com seu aluno, Walt, e seu comportamento voyeurístico contrastam com a imagem socialmente valorizada de uma profissional devotada a um instrumento ligado às idéias de refinamento, sofisticação e harmonia. Esse contraste é paulatinamente alargado à medida que o espectador é convidado a investigar a intimidade de Érika, sua história, motivações e segredos.

Assim, ficamos cientes dos mecanismos de amor e ódio que operam na relação simbiótica com sua mãe, a quem é submissa, com quem trava cruéis brigas (física e verbal), e com quem compartilha uma mesma cama (apesar de possuir seu próprio quarto). Aliado a tais fatores, a ausência da figura paterna teria contribuído para lhe desestruturar a personalidade.

Exemplo disso seria o voyeurismo, perversão na qual a satisfação sexual é obtida por meio de cenas eróticas. Ora, o olhar de Érika obsessivamente sai em busca de tais cenas, seja uma cabina de sexo, seja perscrutando carros no drive in, ou simplesmente mirando seu aluno, Walt, seminu.

Este mantém com a protagonista uma insólita relação, marcada pelo completo desencontro afetivo, pois seus desejos são assimétricos. Embora Walt possa representar o despertar do amadurecimento sexual de Érika, um substituto do pai, o fato é que seu personagem acaba por entrar em sintonia com o lado sombrio de sua professora, levando-o a tornar-se agressivo e a cometer atos perversos, tal como o estupro.

Ao contrário do código narrativo clássico, não se observam, aqui, personagens bem definidos, com objetivos claros, mas sujeitos impulsivos, ignorantes das próprias motivações e desejos. O estranhamento suscitado pelo filme talvez derive dessa falta de identificação com figuras próximas do herói clássico, da vítima, ou mesmo de alguém em algum processo de redenção. Afinal, que tipo de empatia podem suscitar personagens que mutilam sua própria genitália, cheiram fluidos masculinos (em papéis higiênicos) no lixo de cabines de sexo, agridem idosos, violentam, esfaqueiam-se, retalham roupas da própria filha ou tentam algum contato sexual com a própria mãe?

O choque, no filme de Haneke, não soa como uma provocação gratuita, mero exercício de estilo, mas emana desse confronto visual com os obscuros mecanismos da psique em personalidades desestruturadas ou mal formadas, segundo a visão psicanalítica, que fornece uma das chaves interpretativas de tais comportamentos.

A perda de si, nessa perspectiva, pode ser vista como o tema central da narrativa. Aliás, em uma das cenas iniciais do filme, logo após a apresentação de uma peça musical de Schubert “Crepúsculo da Mente”, há um diálogo que discute a referida peça, a qual aborda o tema dos amantes que se reconhecem na loucura. Ora, é bastante sugestivo que, por meio da expressão esfíngica de Érika, possamos perceber o momento em que se dá aquela estranha atração/identificação com seu aluno, o qual ficará, mutuamente, como que petrificado por aquele olhar de medusa de sua professora. É no olhar destes amantes que teremos uma pista da assustadora revelação da personalidade de Walt.

Os demorados planos exercem, em tais cenas, uma função narrativa de nos aproximar de tal esfinge, de  nos familiarizarmos com o estranho universo de Érika. Em termos dramatúrgicos, por outro lado, o olhar adquire importância decisiva na composição das mise-en-scène do filme, por 4 motivos: (1) pela importância de tal sentido como estruturador do real, ao atribuir qualidade a pessoas, a partir da aparência; (2) o choque advindo do antagonismo entre ser e parecer; (3) pelo caráter voyeurístico não só de Érika, mas do espectador, o qual penetra a intimidade desta, a fim de flagrar o grotesco de sua perversão; (4) por percebermos o olhar de Érika como indiferente ao outro, um olhar pornográfico, pois relega esse outro à condição de mero objeto de prazer.

Quanto ao aspecto fotográfico, vale ressaltar que a valorização de cores frias realçou o distanciamento que colore as relações sociais da protagonista. Da mesma forma, a composição dos cenários, muitas vezes claustrofóbicos, adquirem um certo ar austero, quando não ornamental, como se fossem simples projeções da personalidade dos personagens. Tais recursos estilísticos aumentam a carga de estranhamento de um universo, à primeira vista, familiar.

Haneke nos oferece, assim, um painel das relações sociais e familiares, utilizando-se do arsenal teórico da psicanálise, a fim de revelar as raízes da violência e da crueldade. Em última instância, o choque adviria não do fato de o inimigo poder  morar ao lado, mas da possibilidade, então, dele residir em nosso interior.

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Entre Ficção e Realidade

Lucas Simões, 5 semestre

O filme da sessão desta quinta-feira (18/03) foi “Anti-herói Americano” (American Splendor), baseado na série de quadrinhos homônima. Na verdade, o filme é uma biografia do autor da HQ, Harvey Pekar, narrando sua vida adulta e cotidiana, interpretado por Paul Giamatti num período de sua vida onde ele trabalhava no arquivo de um hospital e ainda não havia tido a idéia do quadrinho. No decurso da estória são narradas situações cômicas e cotidianas de sua vida e dentro dela ele vai conhecendo pessoas que permitem que ele se transforme como indivíduo, mas sem perder seu ar compulsivo e ácido.  Foi escrito e dirigido pelos documentaristas Shari Springer Berman e Robert Pulcini, que adicionam um pouco desse elemento documental ao filme, misturando ficção com realidade, de uma maneira e num tom que flui muito bem paralelamente. Duas idéias, mundos duplos e pessoas duplas – pois estão no filme tanto os personagens quanto as pessoas reais interpretadas por eles. Uma coisa que, curiosamente, lembra o filme da outra quinta-feira, Sinédoque NY.

Uma das razões pelas quaais a transição flui tão bem entre ficção e realidade é o fato de os personagens da trama serem tão caricatos, tanto em personalidade quanto em aparência. Eles se encaixam perfeitamente dentro dos estereótipos que compõem, o que facilita uma identificação com eles, também reforçando o lado cômico do filme. A maneira como o filme se desenrola também é bem cotidiana, bem inerte. Os personagens não se transformam, não passam por provações que requerem que eles melhorem como pessoas ou que permitam que eles melhorem como pessoas. Quaisquer desafios e obstáculos que existam na trama não passam de desafios humanos, desafios que qualquer pessoa pode vir a enfrentar em sua vida, não existe nada heróico a ser feito. Isso também aproxima mais ainda quem assiste o filme dos personagens, pois eles deixam de ser desajustados e ‘falhas do sistema’ e se tornam pessoas comuns, sem muitos julgamentos.

A estética do filme lembra bastante a estética dos quadrinhos – cores primárias e brilhantes bastante distribuídas e sem uma predominância de uma ou outra, gerando um forte contraste no quadro geral. Uma certa falta de referência temporal, menos para grandes elipses temporais ou mudanças de local, como se tudo permanecesse inerte até a página, o quadro, dizer o contrário. Também não existem grandes movimentos de câmera, os quadros ficam isolados e os personagens entram e saem deles. O ritmo do filme é bastante uniforme, uno, remetendo também ao cotidiano.

O gênero do filme pode ser considerado meio documental e meio ficção. Porém, o final parece querer alcançar algum tipo de redenção através do drama, o que pode até parecer fugir da idéia inicial do filme, mas é mais provável que se quisesse transmitir que a vida não é uma coisa parada e monótona, que coisas acontecem sim algumas vezes, nem sempre coisas boas e nem sempre coisas ruins. A mensagem que fica no final é que no meio do cotidiano da vida sempre existem aqueles momentos muito bons ou muito ruins, e que são os únicos que a gente acaba guardando pra nós. Muito bom o filme! Recomendado!

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Vida Comum é Coisa Complexa

Adriano, 4 semestre

Grande vencedor do Festival de Sundance em 2003, Anti herói Americano (American Splendor ) é uma produção que mistura ficção com documentário sobre Harvey Pekar, uma figura icônica dos quadrinhos da cena underground Americana dos anos 60/70.

A história de Pekar é bastante peculiar, baseada em seus quadrinhos autobiográficos, American Splendor, e contada através de uma metalinguagem onde o ótimo Paul Giamatti, o Próprio Harvey Pekar e os desenhos dos vários cartunistas que o retrataram ao longo do tempo, são Harvey Pekar.

A história em si segue a jornada do herói, onde o personagem busca algo e que ao final de sua jornada o deixará transformado. Pekar é um arquivista em um hospital em Cleveland obcecado por jazz e literatura, obsessão essa que o leva a vários bazares atrás de discos e livros. Em uma dessas compras conhece Robert Crumb antes de se tornar um famoso cartunista em São Francisco. Pekar vive a antítese do sonho americano: não tem mulher, carro, seu emprego não é grande coisa e sua casa é uma completa zona.

De repente decide fazer algo com o tédio que é sua vida antes que esse o consumisse, e passa a roteirizar historias em quadrinhos sobre o que ele conhece mais: sua vida comum e tão complexa. Isso o leva a outro patamar, ganha notoriedade, o que lhe permite conhecer uma mulher com quem se casa, mas essa fama não lhe faz mudar: seu emprego é o mesmo, continua sem carro e seu mau humor pessimista também.

Os diretores Shari Springer Berman e Robert Pulcini mostram o lado sério de Pekar em uma crescente de eventos, chegando à sua relação com a mídia televisiva americana e como o seus espectadores lidam com quem deixa de entretê-los, e talvez esteja aí a maior diferença entre o Harvey Pekar de Paul Giamatti e o próprio Pekar. Giamatti faz uma boa interpretação, séria e melancólica, mas que é ofuscada pelo pessimismo ácido e irônico de Pekar. Na verdade, todos os personagens são muito bem representados, mas suas contrapartes reais são tão bizarras que acabam se sobressaindo.

Berman e Pulcini contornam as exposições de maneira bem peculiar, transformando Giamatti em quadrinhos e brincando com os depoimentos de Harvey.

American Splendor é uma boa pedida não só para quem curte e entende de quadrinhos, mas para aqueles que acham que a vida comum é uma coisa complexa.

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