Crítica: Sinédoque Nova York

Vida e obra, literalmente, de um homem obcecado

O longa desta quinta-feira, dia 11, foi “Sinédoque, Nova York” do diretor/roteirista Charlie Kaufman e produzido por Spike Jonze. Narra de uma maneira única a vida e obra do diretor de teatro Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman), que passa grande parte de sua vida obcecado por seu trabalho e pelos fantasmas de seu passado.

O que torna o filme tão surpreendente e enfático em seu discurso são os elementos humanos do filme, ou melhor dizendo, os elementos humanizadores: o tempo, a doença, a decepção, o amor, etc. O personagem principal sempre possui uma fragilidade maior – doença, solidão – que não consegue mascarar como os outros, e que dessa maneira o torna mais distante deles, e mais próximo de nós. É bastante real a maneira com que a estória aborda o tema da doença e do tempo, de como o tempo passa imperceptivelmente e como a doença quando surge parece tão horrível, mas logo nos acostumamos a ela. Real também como as pessoas se afastam de nós e ocasionalmente nos esquecem, conhecendo pessoas novas, lugares novos, uma vida nova. O que inicia a estória propriamente dita é, inclusive, esse primeiro contato com a realidade – com a doença – que faz o personagem sentir a necessidade de deixar algo para trás, para o mundo, algo bom, uma atitude bastante humana. E o personagem, imerso nesse pensamento, começa a ficar obcecado por sua obra de uma maneira extremamente perfeccionista e megalomaníaca, que começa a consumi-lo.

Só pelo que foi descrito nem dá vontade de assistir a esse filme certo? Na verdade, apesar de existir essa cachoeira de “realidade” no filme, ele faz uma reflexão acerca do tema de uma forma bastante irônica e bem-humorada, humor negro, diga-se. Portanto, ele ameniza a relação que estabelecemos com essa realidade permitindo uma abordagem mais confortável do tema. Também existe um contrapeso elegante para esse excesso de realidade que é o excesso de irrealidade – surrealismo mesmo – no filme, permitindo que em alguns momentos se pense que ‘a vida é assim’ e que, em outros, ‘a vida não é assim’. Com esses recursos o filme consolida uma certa unidade e força, conseguindo tanto discutir temas profundos da existência quanto zombar deles de maneira natural, brincando muito bem com o contraste tragédia/comédia.

O filme também possui metáforas e personagens metafóricos. A primeira e mais perceptível metáfora é a casa em chamas onde mora Hazel (Samantha Morton), que é também uma das primeiras irrealidades do filme. Hazel é apaixonada por Cotard, e isso fica evidente no primeiro instante em que eles se encontram no filme, sem qualquer palavra. Uma interpretação simples sobre o significado dessa metáfora seria que ela representa a espera de Hazel por Caden, tanto que, quando eles finalmente ficam juntos ela falece, tendo acabado a espera. Uma segunda metáfora seriam as rosas tatuadas no corpo de sua filha Olive (Sadie Goldstein/Olive – 4 anos; Robin Weigert/Olive – adulta) depois que ela se afasta dele e o tempo passa. As rosas podem ser interpretadas como a vida de Olive longe de seu pai biológico, o desenvolvimento de sua personalidade e de suas opiniões e a conseqüente rejeição dela às tentativas de aproximação. E o que a mata são justamente as rosas, infeccionadas, como se a vivência dela longe de Caden por tanto tempo tivesse destruído Olive como ele a conhecia e vice-versa. Um personagem bastante metafórico é Sammy (Tom Noonan), que é na estória um homem obcecado por Cotard e que o segue e sabe tudo sobre vida e, quando ele decide fazer uma peça da própria vida, ele se oferece para interpretá-lo. Sammy é um claro esboço do outro-eu, ou a sombra – que ‘sempre está nos seguindo’ -, de Caden, o antagonista, que se coloca entre o protagonista e suas mulheres, se apaixona por Hazel da mesma forma que ele e sofre da mesma forma por ela e, ironicamente, morre como o próprio protagonista deveria ter morrido. Um outro personagem metafórico é Ellen, que também é um outro-eu de Caden, só que por um outro viés: porque se Sammy representa o outro-eu masculino, Ellen então representa o outro-eu feminino do protagonista. “Ellen” é a personagem que tem acesso à casa de Adele (Catherine Keener), primeira esposa de Cotard, ou seja, “Ellen” tem acesso à ‘intimidade’ de Adele. Assim, enquanto “Ellen”, Caden consegue conversar com Adele e falar de suas metas, sua vida, como está, e ouvir dela também coisas cotidianas, e eles conseguem conversar.

O teatro no filme discute de maneira satírica e inteligente aquela velha máxima de que “o mundo é um palco” onde as pessoas exercem papéis sociais: papel de pai, de marido, de amante, de amigo, etc. A maneira com a qual o protagonista amplia sua obra teatral dentro de sua própria vida reflete a sua necessidade de compreender o papel que ele próprio desempenha na obra, que foi iniciada quando ele ficou doente e sentiu necessidade de criá-la. E assim sendo, ele passa a questionar o papel de todos dentro dos papéis que desempenham, e dentro do filme esse questionamento se torna uma espiral sem fim. Com o agravamento de suas doenças, Cotard começa a perder sua humanidade, de certa forma, e começa a se tornar artificial, quase que um boneco: não consegue salivar nem chorar, depois começa a ter dificuldade para respirar, e isso, combinado com sua personalidade carente, o transforma em um homem cada vez mais dependente do exterior, até que ele perde completamente seu interior, e se torna praticamente mecânico.

Lucas Simões, 5º semestre, Cinema e Mídias Digitais.

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