PROFUSÃO DE CORES E SENTIMENTOS

Nosso caríssimo crítico-em-desenvolvimento Lucas Simões da Silva escreveu mais dois textos sobre sessões da temporada passada, para ir temperando o clima para a temporada 2010/01 do nosso cineclube. Confiram peculiares e cromáticas abordagens sobre “Dolls”, de Kitano, e “O Cozinheiro, o ladrão, sua mulher e seu amante”, de Peter Greenaway:

Entre uma poltrona e as sinestesias carnais de Greenaway

“O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e seu amante” é um filme de 1989 do cineasta, autor e artista Peter Greenaway, que cria uma interessante dualidade entre os prazeres humanos dos quais mais se abusam: os prazeres gastronômico e sexual. No filme ambos são abordados abertamente e sem qualquer formalidade. Existe uma grande excitação visual criada nos pratos do restaurante e na atração entre os amantes, a nudez e, principalmente, em sua – diga-se – fome de paixão. O cenário parece um ateliê gigante onde as obras-primas são criadas, e tem essa mistura de ateliê de arte com palco de teatro, com cortinas ocultando certos espetáculos. Há também uma construção meio circense ao redor do cenário, o que torna a cozinha um local bastante exótico. A visão que a câmera propõe de tal cenário é da mesma forma unilateral, pelo menos em boa parte do filme, o que cria essa ideia de contemplação, como se em certos momentos fizéssemos parte do filme e em outros momentos não. Tanto a cozinha como o restaurante possuem dimensões reais indefinidas, e não se sabe dizer o tamanho de nenhum dos dois, transformando esses dois espaços principais em um grande universo que consegue comportar todos esses personagens apresentados e desconhecidos, bem como tudo o que acontece dentro de tais espaços.

A história gira – como entrega o título – em torno do cozinheiro, do ladrão, de sua mulher e de seu amante. O cozinheiro, Richard Borst, faz jus a seu nome, pois tem ele poder e influência apenas dentro da cozinha, sendo também a cozinha seu auxiliar e o auxiliar de todos que precisam de sua ajuda. Um homem de poucas palavras e gestos firmes, como um deus em seu universo, exercendo seu poder dentro de seu restaurante. O ladrão é o antagonista da trama e dono do restaurante, Albert Spica, um homem absolutamente repugnante e sem qualquer senso de limite moral ou ético, um completo lunático, e, sinceramente, chamá-lo de ‘ladrão’ apenas é um enorme elogio. Não existe uma ação sua no filme que não reflita tal repugnância, tornando-o tão enfático como personagem que é possível saber como ele reagirá a qualquer coisa que aconteça no filme. No filme existe um caráter cômico sobre ele para aliviar um pouco a tensão que ele exerce em quem assiste sua performance também auxiliada pelos seus comparsas, que, apesar de vis, funcionam bem como palhaços em certos momentos. Uma característica interessante notada sobre Spica são suas botas, de salto alto, sapato criado para Luís XV e que faz alusão justamente a um tirano com poder absoluto em seu “Estado”, seu restaurante.

“Sua mulher” faz referência à mulher de Spica, Georgina Spica, refinada e bela, totalmente desvalorizada e vulgarizada pelo marido e que, por isso, busca uma fuga de tal opressão. Possui uma relação de amizade e confidencialidade com o cozinheiro, o qual admira seu paladar apurado para a gastronomia e sua classe, e que vê nela uma grande mulher, tal como todos os homens veriam, ao contrário de Spica. Foi exposta por tantas humilhações e abusos do marido que consegue ser bastante dissimulada e fria quando necessário. Mesmo assim, ela compreende seus limites e compreende seu marido e suas reações, coisa que vamos também compreendendo e, em determinado ponto da trama – quando ela fala das possíveis reações de Albert – temos apenas que concordar com ela. “Seu amante”, por fim, faz referência ao amante dela, Michael, com o qual inicia uma bela relação silenciosa, intensa e apaixonada, e que infelizmente é quebrada, pra variar, por Albert. Um momento até metalinguístico e bem interessante é quando Michael e Georgina estão conversando e o amante comenta de um filme que ele havia assistido uma vez e estava adorando; pela maneira como as pessoas se comunicavam sem dizer uma palavra sequer, bastante romântico – até que alguém quebrou o silêncio entre as pessoas e ele perdeu o interesse no resto do filme. Meio como se Greenaway dissesse ‘a parte romântica acabou, pessoal’.

Uma coisa que Greenaway construiu muito bem foi a relação do grotesco com o sublime, do horrível e repugnante com o belo e atraente. Criou um cenário que cria essa gradação: o beco nos fundos do restaurante, depravado e infame, universo do extremo grotesco, onde o insólito toma sua pior forma. Passando pelo beco e entrando pela porta dos fundos do restaurante chega-se à cozinha (universo do grotesco), onde a comida crua e sangrenta chega para tomar nova forma. Atravessando a cozinha mais adentro chega-se ao restaurante (universo do sublime) onde as pessoas bem vestidas, a comida bem ornamentada, a decoração fabulosa, enfim, tudo possui um tom enaltecido. E por último, caminhando um pouco mais no restaurante, chega-se ao banheiro do restaurante (universo do extremo sublime) onde o amor entre Georgina e Michael surge do silêncio, e de maneira poética. Essa relação de contraste sublime/grotesco também se evidencia através dos contrastes entre o marido de Georgina e seu amante. Albert sempre entra no restaurante pelos fundos, emergindo do grotesco, enquanto Michael entra pela porta da frente, refletindo seu porte e personalidade belos, distintos.

Um aspecto bastante interessante nesta obra é que os vestidos de alguns personagens são feitos de uma espécie de tecido que muda de cor de acordo com a luz, um recurso que permitiu ao autor reforçar os sentimentos dos personagens. Iniciando pelo beco, a nas roupas dos personagens é azul, com uma denotação de tristeza, da noite, uma certa profundidade, como um universo inalcançável. A cozinha possui a cor verde, que denota a fertilidade, estranheza, natureza, como um lugar de coisas puras e naturais. O restaurante possui a cor vermelha, que denota raiva, desejo, atração, paixão, amor, ambição, um lugar onde os sentimentos se tornam ações. E finalmente o banheiro do restaurante que possui cor nenhuma, no caso, o branco, denota a pureza, a inocência, o isolamento, a virgindade, bondade, perfeição, otimismo, como uma fortaleza de coisas puras.

Apesar de a trama meio que se denunciar no título como uma teia de relações entre estes quatro personagens, o filme vai além disso. O grotesco e o sublime vão se relacionando desde o começo do filme e, basicamente no momento em que Albert quebra o silêncio entre os dois amantes, o grotesco e o sublime começam a se misturar até se fundirem completamente. Este filme é uma visão bastante interessante dos dois principais prazeres do corpo em seus dois extremos, oferecendo um discurso belo e repugnante, sensorial e poético, delicioso. Altamente recomendado, e bom apetite.

Lucas Simões da Silva Pereira – 5º semestre

Sofrimento sublime

O filme da quinta-feira de 29 de Outubro foi uma bela realização escrita, editada e dirigida por Takeshi Kitano chamada “Dolls”. Takeshi iniciou sua carreira como ator e comediante sob a alcunha de ‘Beat Takeshi’ antes de alcançar o status que possui atualmente, com filmes que abordam a violência e a máfia no Japão. No entanto é um autor bastante genérico e transita bem por vários estilos, conseguindo bons resultados e boa comunicação com o público em suas obras. Geralmente atua em seus filmes, porém, nesse filme, por alguma razão ele não aparece. Esta é a única de suas realizações onde ele não atua, sendo também um filme sem ação como pauta a tradição de seu cinema. É um filme lento, temporalmente interrompido, com flashes para explicar as coisas novas que surgem na tela, e assim ele vai tomando mais corpo sem tirar a força dos personagens.

Eu percebo esse filme como uma crítica à sociedade japonesa, ou melhor, uma crítica à sociedade em geral, onde somos reduzidos a meros bonecos sujeitos a tudo fora de nós, controlados a tudo exterior a nós: circunstâncias, dificuldades, o bem-estar dos outros, sejam entes queridos ou não, pessoas com os sentimentos manipulados pelos sentimentos e vontades e necessidades alheias ao mundo. Sobre a sociedade japonesa creio que existe uma crítica na relação do casal protagonista, com as amarras e com a mulher em um estado de completa dependência e fragilidade, tal como eram as esposas no Japão antigamente, que pode também, é claro, ser estendida para todo o mundo, apesar de eu acreditar que se relacione melhor com a esposa japonesa. Como uma mulher presa ao marido, que a mantém seguindo-o, que a mantém perto dele. E em todos os casais do filme é clara essa submissão, onde um se sacrifica completamente pelo outro, e em alguns casos o sacrifício é retribuído, e em outros não. Ou seja, as pessoas não têm sentimentos próprios, são meros joguetes de suas próprias vidas, de suas oportunidades. Elas surgem e eles devem decidir se abandonam tudo que amam para agarrar a oportunidade ou se perdem tudo para agarrar o que amam. Apesar de poder ser interpretada como uma critica, não parece existir uma opinião do autor se isso é realmente bom ou ruim, ou se esse sentimento de dependência e sacrifício é levado como algo nobre, algo belo.

A trama gira em torno de vários personagens que são conflitados com diferentes formas de escolhas sobre o mesmo tema, entre o amor e o dever, ou entre o racional e o irracional, ou o certo e o errado, basicamente, escolher entre o que eles querem para si e o que os outros querem para eles. Existe um casal protagonista que se separa por algo extremo e se reune por algo mais extremo ainda, e após isso eles seguem uma jornada para regenerar o tempo deles, a memória deles enquanto casal. Ao redor deles existem outros casais que ou não optaram pelo mesmo caminho deles, ou possuem uma relação um pouco diferente. Os casais precisam lidar com uma determinada perda em ambas as partes, procurar um recomeço depois dessa perda com o sacrifício de algo da parte de um deles e, depois do reencontro, há uma tentativa de regeneração.

A câmera é bastante contemplativa (comum no cinema oriental) composta por movimentos simples, quando existentes. Apóia-se bem no som, tirando um pouco a dependência da imagem para a apreensão da narrativa. A câmera meramente observa o que acontece, como se fosse um espetáculo, um show de bonecos, e nós fôssemos a plateia enxergando um teatro pelo quadro da câmera. E a narrativa visual possui uma coisa humana no que diz respeito à memória: os flashes só surgem no momento onde é apresentado o elemento novo, e eles revelam a memória que relaciona os dois elementos. Vê-se a coisa e imediatamente lembra-se da coisa.

As cores predominantes neste filme são o amarelo, o rosa, o vermelho e azul. O amarelo denota um caráter protetor, uma energia, uma força, um propulsor, um início, um sol. É a primeira cor que aparece com força na narrativa. Depois desta vem o rosa, simbolizando o amor puro, a entrega total, o altruísmo, a ajuda ao próximo. Os casais na narrativa possuem uma forte relação com esse sentimento de entrega, de amor altruísta e verdadeiro. O vermelho que pontua o amor maduro, o amor forte, o ‘elo’ do casal, que os mantém seguros e unidos. Em outros personagens o vermelho reflete ambição, poder, vitalidade e coragem. E o azul, por fim, pontua a lealdade, a profundidade e a noite. Por mais “viajante” que possam parecer estas comparações, é interessante perceber como a relação de cores inicia em ‘sol’ e termina em ‘noite’. O desfecho dos personagens, alguns deles, desenrola-se durante a noite.

No fim, as atitudes extremas dos personagens acabam gerando consequências desagradáveis, e apesar disso eles parecem felizes com a escolha que fizeram – por mais que isso pareça errado. O filme é bastante humano por isso, pois mostra a luta humana pelas próprias crenças, mesmo que em caminhos extremos – transformando-os em pessoas mais nobres por seguirem os caminhos em que acreditam. Ao mesmo tempo em que essa reflexão é bastante triste, é também bastante otimista, como se dissesse que, apesar de tudo, as experiências humanas valem a pena.

Lucas Simões da Silva Pereira – 4º semestre

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: