Produção crítica no Cineclube

Nosso crítico oficial do cineclube produziu textos refletindo sobre filmes que exibimos no cineclube. Sobre “Amor à flor da pele”, Lucas Simões reflete sobre a construção das relações humanas através da delicadeza. Sobre “Paixões que alucinam”, ele pensa nos limites frágeis para aqueles que se aventuram a arriscar a própria sanidade. Enjoy!

A beleza universal do amor pela lente de Wong Kar-Wai

“Amor à flor da pele” é um filme de beleza extremamente sutil, e esta é a palavra correta para esse filme porque ele se pauta em pequenos gestos, pequenas ações. Não de propósito, a sutileza marca o filme porque a sociedade da época funcionava através destas sutilezas. É a Hong Kong dos anos sessenta, uma sociedade de princípios rígidos e machistas, já nessa época super-populosa (3 milhões de pessoas), com pessoas se espremendo em apartamentos sem qualquer intimidade, e que cobrava de seus habitantes máxima discrição. É nesse ambiente que a Sra. Chan (Maggie Cheung) e o Sr. Chow (Tony Leung Chiu Wai) se conhecem.

Os heróis se mudam cada um para uma casa, abrigados em quartos vagos de duas famílias diferentes, e, sendo vizinhos, envolvem-se casualmente, como dois amigos. Porém, tudo isso ocorre pautado por essa constante sutileza, com olhares, sorrisos e belos momentos musicados onde fica claro que estão pensando um no outro. Isso fica bastante claro através das cores do filme, que são bastante sóbrias nas outras situações e mais vivas nos momentos nos quais eles estão juntos. Uma coisa interessante neles é que, mesmo não sendo casados, eles se fazem viver situações como se estivessem. Para saberem as próprias reações, eles se colocam no papel de cônjuge um do outro, e nesses momentos é possível ter uma noção de como a Sra. Chan se sente diante da situação. Uma cena muito significativa é aquela onde a Sra. Chan está no banheiro chorando. Este é o único momento em que ela está completamente exposta, e isso é ilustrado pelos seus cabelos, totalmente desgrenhados (o enquadramento permite ver praticamente só o cabelo). O cabelo dela tem uma coisa de força, de controle da situação, e apenas nesse momento ela está fragilizada.

O filme se utiliza de slow motions e planos longos, com sequências lentas atravessadas pela trilha sonora, criando momentos de introspecção, onde eles estão pensando um no outro. Ainda assim, da mesma maneira que o tempo consegue ser lento, ele também se torna muito rápido em alguns momentos, realizando saltos temporais. A trilha sonora vai se adaptando a isso, justamente por ser composta de boleros, estilo de música romântico e de ritmo mais lento. Tudo a ver com o filme.

A Sra. Chan possui uma força que a torna muito mais presente na estória como mulher, ao invés de ser simplesmente submissa e ficar sempre em casa, como toda dona-de-casa. Ela prefere sair da casa para comprar macarrão ao invés de cozinhar, o que reflete bem o movimento que acontecia na época, da crescente independência da mulher. E o que a torna forte de verdade é que age assim sem se embrutecer, mantendo a intensa sensualidade; uma personagem muito atraente. E o Sr. Chow, em contraponto, é um homem romântico, preocupado com as necessidades da esposa e ao mesmo tempo com a reputação da Sra. Chan: é um daqueles achados das sociedades machistas. Reservado e preocupado com seus amigos, é um homem virtuoso, tornando-o um personagem igualmente atraente.
A história se desenvolve de maneira fluida e sem uma preocupação com explicações. A maior parte das cenas se encerra depois que informou o que queria. Kar-Wai domina bem esse movimento que ilustra a naturalidade das relações entre as pessoas, as descobertas, confissões, momentos de descontração, revelação, etc. O filme se torna humano através de todos os personagens, e mais humano ainda nesse sentimento, o amor, que ele constrói e mantém ao longo do tempo.

Lucas Simões da Silva

Uma jornada para a loucura

Samuel Fuller adentra com realismo no tema da insanidade em “Paixões que alucinam”, criando imagens perturbadoras e personagens vitimados pelas próprias situações extremas que vivenciaram. No filme existe um contraste entre a obsessão do personagem principal – Johnny Barrett, interpretado por Peter Breck – de ganhar o prêmio Pulitzer desvendando um assassinato sem solução, e o risco que essa obsessão oferece. O personagem se faz de louco para poder entrar no manicômio e interrogar as três testemunhas do assassinato – porém, para isso, precisa que eles estejam em seus momentos de sanidade. E enquanto aguarda esses momentos de sanidade de seus colegas vai perdendo os seus próprios. Sua obsessão o consome aos poucos enquanto ele perde sua real identidade, não sabendo o que é o papel que interpreta e o que é realmente parte dele, até o momento onde ele não se reconhece mais.

A visão mais chocante do filme é o corredor infinito do manicômio, que faz justiça o título original do filme – Shock Corridor, corredor de choque. O corredor infinito traz uma sensação de desconforto, pois simboliza uma jornada inútil, um objetivo distante e talvez inalcançável, que é o tom que fica no ar enquanto o protagonista se torna aos poucos aquilo que sua namorada, Cathy, interpretada pela bela Constance Towers, profetizara. Na verdade, é possível dizer que essa obsessão intensa de Barrett já era sua loucura, e que ele entrou voluntariamente no corredor infinito.
O filme é um clássico noir na sua estrutura e bastante inovador na sua abordagem, e é interessante observar que a femme fatale, neste caso, é justamente sua obsessão, a vontade cega de ganhar o prêmio Pulitzer, que o seduz e o desconstrói, até o destruir completamente. Cathy poderia ser interpretada como uma femme fatale meio não convencional, praticamente do avesso, porém esse é um engano. Isso se dá porque um erro fácil de cometer quando se observa o gênero noir é achar que a femme fatale é exclusivamente uma mulher, o que, em alguns casos – como este por exemplo – é uma exceção. A ‘femme fatale’, mais uma força que um modelo arquetípico, representa o destino, a fatalidade, o inevitável, a queda. A previsível queda do protagonista é orquestrada pela femme fatale.

Outra curiosidade são as três testemunhas que Barrett precisa interrogar: um comunista – Stuart (James Best), um negro – Trent (Hari Rhodes) e um cientista – Boden (Gene Evans). Sinceramente, não sei dizer se isso é intencional, pois se fosse seria uma crítica bastante interessante. Todos eles enlouqueceram diante da opressão da sociedade sobre eles, e suas loucuras refletem um pouco disso.

Um filme perturbador e ótimo. Em 1996 ele foi selecionado para preservação no Registro Nacional de Filmes por ser considerado “culturalmente significante” pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos. Não é um Oscar, mas é bom. Recomendo!

Lucas Simões da Silva

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