EM CARTAZ: KITANO E WENDERS

Nesta semana, reservamos dois favoritos

Na quinta (sempre 11h, IESB Sul, Bloco B, sala de cinema), trazemos uma das obras-primas do cinema contemporâneo. É fato que “beat” Takeshi Kitano é o maior talento do cinema japonês contemporâneo, seja abordando certas “marcas” de violência (“Hana bi”), uma inesperada sensibilidade pueril (“Verão Feliz”) ou o tradicional Jidaigeki, filme de samurai (“Zatoichi”). DOLLS, porém, é, quase que indiscutivelmente, sua obra-prima. Lançado em 2003, é de uma visualidade assombrosa, e relata uma história de rara poética e ousadia. É possível dizer sem errar: valeria cada centavo se essa sessão fosse paga. Como é de graça, fica apenas a garantia de se assistir a uma obra maestra do cinema contemporâneo.

No sábado (16h, IESB Sul, Bloco B, sala de cinema), Paris Texas, de Wim Wenders, mostra o entendimento que o grande diretor do “novo” cinema alemão teve sobre a subjetividade americana ao abordar a busca pessoal de homem à deriva no deserto interpressoal que é a América.

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Aproveito a oportunidade para republicar um texto sobre Dolls que saiu à época do lançamento do filme, no extinto www.alucinaticos.com.br.

Dolls: uma chance ao extremo

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Não haveria como um ocidental ter feito “Dolls”. As chances abertas aos personagens de “Dolls” jamais seriam abertas em qualquer enredo deste lado de cá do planeta. Lá, abre-se uma possibilidade de realização do absurdo. E, – absurdo! – vivê-lo. “Dolls” é a promessa Takeshi Kitano concretizando-se para além do prometido. Famoso pelo ladrilho zen com que pavimenta seus filmes de gangster, Kitano, enfim, entra para o rol dos grandes diretores japoneses, e um dos maiores contemporâneos. Sem um grão de exagero, “Dolls” é uma obra-prima do cinema recente, e sua chegada não poderia acontecer em momento mais propício. Kitano dá chance à dor, dá chance à loucura, dá chance a uma vida irrealizada. Seu cinema desponta como a antítese da felicidade em pílula, da vida saudável, da malhação, da dieta balanceada, do trabalho por prazer. Kitano fala, simplesmente, da vida, qualquer que seja a sua manifestação.

Para isso, ele recolhe, numa lenda antiga (trazida à tona pelo teatro bunraku), uma tragédia lírica que faria Shakespeare corar de inveja: dois namorados, Matsumoto e Sawako, se juram, na infância, o casamento. Ele, por pressão da família, é obrigado a casar com a filha do patrão. Ela, desesperada, perde a lucidez, tenta o suicídio, sobrevive e se torna incomunicável. Ele decide, então, se amarrar a ela e vagar pelas ruas, consolidando a união preconizada na infância. Atravessando esta história, Kitano narra, transversalmente, outras duas, de conseqüências extremas e similares, procurando extrair (e ela existe) toda a beleza do sofrimento humano. Sua direção, então, amparada por uma fotografia esplêndida, passa a, como se fosse um jogo de xadrez, ganhar terreno dentro da aceitação do espectador, com transições mensuradas, cortes de seda e flashbacks de um plano só. A edição é exímia; o ritmo é maturado dentro de uma cabeça de gênio. É difícil conceber o trabalho gasto para sincronizar tão bem cenas encharcadas (em tempo e espaço) por momentos diferentes. Sim, “Dolls” é uma música.

Recolhendo os planos para suas alturas mais gerais, Kitano reduz seus personagens e seus dilemas incorrigíveis às agruras da natureza. Tal qual Antonioni, que faz do cenário o seu mais importante personagem, Kitano aborda um mundo de belezas extraordinárias, jamais percebidas pelos homens, que caminham atados aos seus destinos trágicos, amorosos, fortes o suficiente para levá-los por toda a vida. A beleza triste das paisagens de “Dolls” chega a parecer irônica diante da indiferença dos seus personagens, absortos em suas decisões torpes, mas possíveis. Passando do inumano (a natureza) para o humano, uma outra realidade, ainda mais impressionante do que aquela dos sentidos, emerge: a realidade daqueles que enxergaram na dor e no sofrimento um caminho possível para a vida, e seguiram em frente com ele. Em todos os três casos apresentados, o que temos é uma opção radicalmente passional tomada por meio da razão: escolhe-se o ilógico, o bruto, o absurdo, convive-se e morre-se com ele. Em Kitano, estas escolhas não passam como anomalias, combinações aleatórias do acaso ou casos psiquiátricos.  O autor decide expô-las com compaixão. Compaixão por aqueles que, em nome de sua diferenciada balança hierárquica de valores para com a vida, decidem sacrificá-la em nome de um bem maior; o amor, por exemplo. Em nenhum momento percebe-se nenhum lapso de arrependimento nestas personagens extremas. Elas não vivem como loucas. Elas são loucas porque vivem.

Kitano, então, explora cada ser humano como uma ilha de sofrimento, e sua intenção jamais será a de encontrar uma solução para este sofrimento (caminho optado pelos americanos em vários filmes, como “Forrest Gump”). Pelo contrário, sua idéia é a de que este se multiplique, para que se multiplique também a sua beleza, já que não há homem sem sofrimento. Como se estivesse dentro do processo de composição da realidade, o diretor restaura o homem extremo como pode, tentando fazer com que se enxergue este homem pela lente do amor contido em cada gesto sofrido. Esta intenção, mal compreendida em filmes difíceis, como “Hana-Bi”, em “Dolls” se deflora, trazendo-nos finalmente a pedra de toque do seu trabalho. É na tragédia lírica, mais do que no drama de máfia (“Hana-Bi”, “Sonatine”) e no drama familiar (“Verão Feliz”) que Kitano encontrou melhor veículo para sua expressão da vida. Seu interesse, embrionário nos outros filmes, e central neste, é a vida em si, seu ciclo, a beleza de sua trajetória, a inevitabilidade de seu fim, não importando os valores que a conduzam. É um amadurecimento rápido, para quem começou na década de 90, e motivo para se aguardar ansiosamente por outras obras-primas.

Ciro I. Marcondes, 2003.

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