Visões sobre um clássico do animê

nausicaaNosso aluno escreve uma crítica sobre Nausicaä, o animê de Hayao Miyazaki exibido no cineclube IESB.

O filme desta quinta-feira, dia oito, foi o primeiro longa-metragem de animação do consagrado diretor, desenhista e roteirista Hayao Miyazaki: Nausicaä do Vale do Vento. O filme se passa em um futuro apocalíptico, 1000 anos após a destruição da natureza como a conhecemos pelos abusos da humanidade, tendo o ecossistema nesse intervalo milenar evoluído para um ambiente tóxico e cheio de seres agressivos, que nessa história são insetos. As civilizações sobreviventes a essa natureza opressora lutam entre si, ao mesmo tempo em que algumas tentam destruir as florestas envoltas nesse ecossistema tóxico, denominado “Mar da Corrupção”. Outras aprendem a utilizar a matéria-prima dessa floresta tóxica para se desenvolverem, procurando um controle para evitar que o ecossistema se prolifere dentro de seu território. Porém, as tentativas de destruir tanto essas florestas quanto os insetos que as habitam só acabam por proliferar ainda mais esse ambiente tóxico, causando também a ira dos insetos, que reagem destruindo tudo em seu caminho até acalmarem sua fúria.

A história se estrutura ao redor da personagem principal, Nausicaä, que é a princesa do Vale do Vento, uma das civilizações que se adaptou e sobreviveu a esse ecossistema. Ela é uma personagem forte, com um grande ideal de união entre a natureza e os homens, demonstrando grande desejo pela paz. Seus ideais a tornam uma pessoa inspiradora e de grande influência para os habitantes de seu vale, porém os mesmos ideais em alguns momentos acabam por colocá-la em situações de risco. A concepção básica da personagem tem duas fontes: a primeira é a personagem homônima da mitologia grega, filha do rei Alcínoo dos feácios, que demonstra bravura diante do desconhecido, além de  uma grande compreensão das coisas e dos seres, como a protagonista do filme. A segunda fonte é uma personagem da literatura japonesa, da história “A princesa que amava insetos”, onde a personagem – também uma princesa – tinha um grande interesse por insetos, em especial por larvas, e seus pais não aprovavam esse comportamento. No filme isso é bem reforçado pelo fato de os monstros antagônicos aos humanos serem justamente insetos e, principalmente, porque o maior e mais temido inseto de todos é justamente uma larva gigante.

O filme possui uma trajetória narrativa bastante semelhante à dos filmes de Miyazaki que se seguiram, onde somos inseridos em um universo desconhecido – partindo ou não de um mundo comum, conhecido – e daí em diante a narrativa nos envolve com cada novo elemento que se adiciona desse novo universo, dando mais corpo à história. Um fato curioso é que nesta história as motivações de certos personagens são mostradas através de flashes, memórias, justificando certas ações e dando mais espaço para a história em si. Falando em espaço, o filme tem muito essa questão oriental de utilizá-lo para trazer informações sobre os lugares que os personagens habitam, reforçando um caráter contemplativo, poético. Os planos se caracterizam mais por inserir os personagens no espaço, cercando-os com a paisagem, do que simplesmente mostrando-os realizando ações. Os planos longos dão um certo suspense e, ao mesmo tempo, fogem muito bem do tédio, pelo fato de que mesmo que o personagem esteja realizando uma ação contínua, ele ainda interage com o espaço e com outros personagens.

O filme não abusa de trilhas sonoras, contendo essencialmente os sons da história em si, e utiliza muito bem o silêncio. Com o silêncio, o caráter contemplativo fica reforçado, e os personagens podem ser melhor explorados em sua expressividade e humanização, fazendo a atmosfera do filme envolver o espectador com mais intensidade, o que uma trilha exagerada romperia. Quase todas as ações realizadas tem um som particular, o que dá uma vida a mais, uma presença maior dessas ações, ajudando também o espectador a se envolver mais.

nausicaa-sporesO filme é baseado é um mangá (história em quadrinhos japonesa) de igual notoriedade, também assinada por Miyazaki. Uma coisa que eu particularmente gosto muito neste autor é a maneira como ele descreve a interação entre os personagens e certos objetos, fazendo com que os próprios objetos algumas vezes se tornam meio que personagens. Da mesma forma, gosto de como ele humaniza bem os seres vivos e cria essa interação entre o homem e o animal. Os filmes do Miyazaki – em sua maioria – possuem a premissa básica que eu já mencionei da inserção do personagem (que na maioria das vezes é uma mulher) em um universo desconhecido e que vai se revelando mágico ou místico enquanto se vê ameaçado por um mal impersonificado – suas histórias não costumam ter um vilão propriamente dito. E esse caráter místico sempre envolve a natureza, a ecologia, e o mal geralmente diz respeito às ações nocivas do homem sobre a natureza – consolidando sua crítica ecológica. Miyazaki também usa bastante aviões em seus filmes, demonstrando seu gosto por aviação. No entanto, seus filmes mais recentes – e ironicamente os que foram feitos para um público, digamos, mais global – fogem desses formatos. “A viagem de Chihiro” e “O castelo animado” perderam todo esse caráter místico e de relação com a natureza para dar pano para duas estórias de amor, onde a heroína salva o seu amado de sua própria ambição por poder, no caso um poder mágico. E mesmo que isso demonstre uma clara tentativa de abarcar um público maior, com uma grande mudança de rumo em toda uma tradição narrativa e estética, eu não consigo deixar de assistir: é Miyazaki.

Minha crítica em suma é esta: assistam, porque é Miyazaki.

Lucas Simões da Silva Pereira, 4º semestre.

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